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Um café e um peito mexido

Você deve estar achando muito estranho o título deste meu conto. E, de fato o é. O café na  Saraiva estava cheio, lotado – sábado é o pior dia para alguém ir ao Shopping, ainda mais ir à livraria. Não tive escolha. Tive que ir. Fui. Estava com uma vontade louca de ler os meus textos de sempre: Literatura, e muita Psicanálise.

Quase no fim de tarde, entre algumas leituras, peço um café expresso, o de sempre, e um pão de queijo. Devorando Lacan naquela tarde , e não deixando de olhar atentamente uma velhinha que estava à minha esquerda. Que coisa interessante: mal vestida. Se é que existe isso. Por ser aquele tipo de lugar, parecia mal vestida. Ela havia pedido um café e um bolo. Raramente tocava o bolo. Ciscava, às vezes. Na sua mesa havia umas revistas, livros de temas variados, mas ela não largava um livro específico. Não dava para ver qual livro era. Ela estava lendo fixamente. O tempo de sua leitura, era o meu tempo ali desde que cheguei ao café.  Continuar lendo


Literaturas da periferia: o desafio da estética

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Literaturas da periferia: o desafio da estética

Como Cultura ressignificou, em dez anos, os subúrbios. Por que movimento precisa mostrar que sua importância vai muito além do social

Por Antonio Eleilson Leite, na coluna Literatura Periférica

Desde a década de 1990, quando o Movimento Hip Hop consolidou-se na periferia de São Paulo e na maioria das cidades da Região Metropolitana, surgiu uma cultura com características próprias. Sua expressão traduz este espaço social suburbano, com toda a complexidade de suas comunidades. Uma cultura que afirma positivamente uma região ainda hoje estigmatizada pelo quadro de pobreza e violência. Uma arte que vem ressignificando o próprio conceito de periferia, a partir de uma nova noção de pertencimento. Ela identifica artistas portadores de uma estética original. Seus contornos podem ser observados especialmente na produção literária que se expandiu, nos últimos dez anos, por toda a periferia paulistana. Ao observar a literatura que surge daí, percebe-se de forma nítida a busca de um desenvolvimento estético para as criações.  Continuar lendo


Verdade versus análise

Verdade versus análise

Nova coletânea de textos de Roberto Schwarz repõe em jogo a necessidade de pensar o Brasil a partir da politização da análise estética

Por Alexandre Pilati*

Martinha versus Lucrécia (Cia das Letras, 2012), último livro do crítico literário Roberto Schwarz, chegou às livrarias mês passado e abasteceu os cadernos culturais de alguns de nossos periódicos com um saudável bafejo de polêmica, embora esta não tenha nem duração e nem aprofundamento garantidos, pois, nesses tempos pra lá de pós-modernos, de pauperização encefálica da grande imprensa, polemizar a sério é algo desconectado da fruição irrestrita do “curti/não-curti”, cada vez mais arraigada nos “melhores talentos” intelectuais brasileiros. De qualquer forma, a polêmica se justificou basicamente por dois motivos: 1) pela análise cerrada do ambíguo livro Verdade Tropical de Caetano Veloso e 2) pela, segundo alguns, injustificada insistência do crítico em interpretar a experiência histórica brasileira a partir de suas experiências culturais, especialmente aquelas provindas do campo da literatura, atualmente muito combalida como atividade estética de escavação do real. Se desde o título o livro de Schwarz carrega a marca do acirramento do debate, em chave dialética, não haveríamos de esperar outra coisa. Talvez esteja aí um pouco do seu mérito.  Continuar lendo


Drummond Eterno

Carlos Drummond de Andrade recitando “Mundo Grande” um de seus poemas.

Drummond Eterno

Ouça em Literatura. Clique na imagem.


Urubus – Uma metáfora da condição do urbano

Uma leitura em Drummond

O curta Urubus é um filme frio, quase colossal. Repare o olhar dos personagens: Josué (Mauri de Castro) e Alípio (Juquinha) – não é um olhar; é uma feição Clariceana, do tipo da personagem Ana, no conto Amor, em Laços de Família, que ₺olhava e via um cego mascando chicletes.” Confesso que é  um filme curto, mas longo nas possibilidades de leitura, deixa a plateia sem fôlego. Belíssimo e impactante.

Escrito por Miguel Jorge, é um texto rápido que conta a história de dois catadores de lixo. Na verdade, não catadores, mas moradores do Lixão. Miguel escreve um roteiro que não segue na via do monólogo, ou mesmo um filme curta-documentário, como é o desbravador Estamira. Miguel prefere revelar cenas simbólico-verdadeiras que vão mostrando a crueza das relações humanas a partir de um cenário de vivência muito além da vivência humana. Lá é lugar de urubus. Lá vive o Urubu-rei (Sarcoramphus papa). Ele prefere a ave de rapina como ponto de apoio à temática do lixão. Na verdade, em Miguel, nos parece que o Urubu é apenas o ícone do, talvez, mas baixo nível de decomposição de matéira cadavérica. Sabia? Os urubus não possuem siringe (órgão vocal das aves), logo não podem cantar. Portanto, ao invés de cantar eles crocitam. É assim que o Alípio e o Josué são mostrados: eles crocitam. Na mais tenra e densa condição humana. Também não falamos, grunimos; não expressamos inteligibilidade, não comunicamos, não amamos, nem conquistamos; às vezes, apenas sonhamos. Um sonho fétido, mas ainda sonhos.  Continuar lendo


Numa manhã de Natal

Acordei naquela manhã diferente das outras manhãs. O dia era chuvoso, turvo e frio. Era manhã de natal. Acordei com a gritaria da “galera”. Assim é que era chamada os meus colegas da rua. Naquela época, morávamos numa casa de conjunto, uma casa pequena, numa rua estreita, marrom-amarelada e cheia de buracos. Tinha vezes que cabia um carro lá dentro. Era a rua D-7, esquina com a D-10.
Éramos pobres.  Continuar lendo


“Tudo o que é sólido desmancha no ar”


As crianças gritavam, a televisão, ou melhor, o som estava alto; um choro, um berro, o telefone infernal que sempre tocava nas horas impróprias, e ainda, os seus olhos que tentavam fixar paixão nos seus últimos dez minutos no programa de esporte que passava na TV.
Domingos estava sentado, mudo, telepático, uma chaminé de angústia inerte.

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“E aí Jorjão, já fez amor à três?

Seu Jorge levantou cedinho como de costume, olhou pela janela e logo abriu um sorriso positivo – daquele que se diz: ´hoje é o dia´. Jorge era um homem normal, assim como nós, fazia as mesma coisas que todo mundo faz.

Mas nasceu uma segunda-feira inusitada: achava que mesmo cedinho como sempre, esse dia amanhecera diferente. Correu a mão pela pia do banheiro e a escova de dentes cai na privada. “Cê tá louco, sair sem escovar os dentes… nunca! Pô, mas dentro da privada?”

Arrumou tudo, tudo. Deixou apenas a camisa por último – essa mania ele não largava, aliás não largava nenhuma, apenas mudava a ordem – foi vestir: “cadê o botão da gravata?”.  Pôxa, tá parecendo praga!

Seu Jorge chegou ao Café de sempre: “um pão-de-queijo e um capuccino médio, médio hein!, por favor!”. Após uma breve pausa da atendente…

- Desculpe seu Jorge, mas hoje não tem o seu capuccino. Soltou a moça, com uma voz de impotência atenciosa.

- Seu Jorge, não vai hoje um carioquinha pra variar! Não vai se ofender, hein! – respalda mais aliviada a jovem moça.

Não tem lógica! Porque hoje? Logo hoje?! Há quanto tempo eu tomo café só aqui, mas você escolheu hoje, num foi? Não, não, eu sei que foi!

Sua consumação era interna, lenta, parecia que era à medida das horas. Logo um colega do trabalho toca-lhe as costas, numa roda de amigos, no intervalo da hora do almoço: “e aí Jorjão, já fez amor à três? “  “Não!  Não “ Afirma resoluto, seu Jorge.  “Então, corre pra casa que ainda dá tempo!” E as risadas soaram hall à fora, e na mesma velocidade, seu silêncio o engolia.             Na verdade, emudeceu-se com a vontade pelo chá da tarde, o jantar na sua casa com os familiares e, tudo o mais tornou-se fortuito.

Deu às costas e vagou pelo shopping por horas. Ainda restava uma mania antiga: ir ao sebinho atual – uma livraria – misto de livros velhos e novos. Logo entrou com aquele ar de apaixonado, chamou animado até: ´ei! cadê o Zé, ele ficou de olhar uns títulos para mim.

- Ei, doutor, ele saiu, não trabalha mais aqui.

- Como saiu? Saiu que dia?

- Hoje!

- Hoje?

- É, hoje!

Seu Jorge cala e franze a testa, coça a nuca e, é interrompido:

- Posso ajudar? Quais são os livros?

- Pode, pode. Toma aqui. Sem paciência rascunha os nomes das obras e os autores e entrega para um outro atendente.

A velha livraria estava lotada, acontecia um lançamento promocional da série Harry Potter e o rapaz já advertiu o doutor: “Oh! Vai demorar um pouco!

- Como? Porquê? E o computador?

- Tá fora do sistema?

Depois desta seu Jorge encosta no balcão – um encosto de consentimento triste.

Logo o rapaz volta: “Doutor, é o seguinte, tá difícil!

Manuel Bandeira não é aquele que escreveu o Pneumonia. Jorge cuspiu rapidamente: ´puta que pariu!´ Não é a Pneumonia. É Pneumotórax.

- Pois é, morreu deste negócio aí – não tem não!

- Esse aqui ó: Eu,  agosto dos anjos – procurei na parte da religião e exoterismo – não achei nada!

´Agosto dos anjos´, você disse? Puta que pariu duas vezes, cara. Meus Deus! Jorge esta indo à loucura.

Mensagem de Pessoa – nunca tivemos aqui, mas chegou um novo do Chico Xavier, é o que fala com os seus entes queridos. Esse é bom, esse é bom, vende muito. Afirma o velhinho sorrindo.

Antes de ele dar o relatório de sua intensa e próxima procura literária, seu Jorge pergunta:

- A prateleira de poesia tá ficando bem aqui em baixo e caindo  é pra mostrar o desprezo que vocês tem pela poesia, é?

- É! Disse sorridentemente e concordando com a cabeça.

Diz só mais uma coisa: você parece que sabe muito pouco das coisas aqui não é…

Bom, seu Jorge, na verdade, eu, eu … só trabalho aqui.

- Amigão (irritado, seu Jorge), faz o seguinte, – passa a mão na barba do lado direito para o esquerdo – você tem os livros daquele literata, o Paulo Coelho?

- Rô, rô, todinha! Todinha! – respondeu.

- Chequinho à vista, pode ser! Ô?! Congratulou o atendente.

Logo, logo ele volta: “Ô doutor, não vai ter jeito não!

- Que isso! Como não tem?!

Tem não ué, acusou seu nome no SPC!

´´Puta que pariu´´  – esbravejou o velhinhdo. ´´Ía ser a minha primeira venda de hoje´´.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. (no prelo)  de  DOUGLAS RODARTE


Como se fosse o primeiro dia

Ele vinha de longe, acho que, de bem longe mesmo. Era baixo, meio-calvo, falava pouco,  para não dizer nunca. Todos os frequentadores do café sempre o viram sozinho e sempre amuado. Ele chegava e logo a  moça do café, tinha que ser sempre ela, dizia macio:

-         Bom dia? Bom ju? Good morning?

E o silêncio resfriava o ambiente. Ele entrava, sentava-se, cruzava as pernas, e somente levantava os olhos para a mesma moça, aquela de sempre, e ela mais que depressa trazia as duas xícaras de café, o açucareiro, um adoçante, dois cigarros picados – de marcas diferentes – podia ser qualquer marca desde que fossem diferentes, dois copos de água; sempre ficava não mais que trinta minutos. Depois, calmamente sem tocar em nada, lavantava-se, ia  ao caixa, pagava tudo e saía.

Na mesma toada que saía, entrava numa revistaria, por volta das 7:30h,   na verdade, era uma banca de revista muito ruim,  havia quem gostava. Comprava o jornal de sempre, a Gazeta Mercantil, não olhava  os títulos e nem sequer as manchetes, somente prestava atenção se a data era aquela  mesma.

-         Mais alguma coisa  Sr?

Ele já trazia o dinheiro contado no valor exato, pegava o jornal, dobrava-o ao meio, colocava-o debaixo do braço direito, somente olhava para o jornaleiro e dava-lhe as costas enquanto o jornaleiro sussurrava baixinho, quase imperceptível: “tem que gostar muito, né?  Doze anos, o mesmo jornal! É,  cada um na sua”.

Ele então caminha  destoadamente pela Av. Anhanguera, que fica próxima à praça dos Bandeirantes, pouco distante, pertinho mesmo, do café. Parava, espera a Ótica abrir, dava dois passos e retirava defronte ao espelho  seu pentinho preto para o cabelo e o marrom-fino pequeno para a barba, e ali, gastava três minutos. Não mais que isso. Nunca!

- “Dia  bonito hoje, hein, o Sr. Não acha?”  Perguntavam  lá do fundo da ótica. Com o fim do penteado, abanava a cabeça e dava as costas.

Logo chegava a hora do almoço, ele fazia dois pratos, como de sempre, um frente ao outro, novamente pedia duas xícaras de café, o açucareiro, um adoçante, dois cigarros picados, de marcas diferentes – podia ser de qualquer marca desde que fossem diferentes, dois copos de água – esperava tanto, umas duas horas, não tocava na comida, mudo, se levantava, e depois ia embora.

-         Esse velho só pode ser louco! Como pode, todo dia!

Todos e de todos o lugares se perguntavam sobre aquele velho carrancudo e meio-estranho. “Só pode ser louco!”. Uns diziam. “Ah! Isso é trauma!”.  “Não, é alguma macumba que fizeram, meu avô já teve esse troço”.  Outros falavam: “Ih! Vai ver a mulher morreu!”. “Nada, quem sabe é mudo mesmo” e se, é doidura mesmo?  Numa  hora dessas, ele tráz uma bomba! O velho é louco…”.

No dia seguinte a cena foi nostálgica:  ele sentou-se, cedo, e , como se fosse o primeiro  daqueles longos dias, dos longos anos, ele pediu duas xícaras de café, o açucareiro, um adoçante, dois cigarros picados, de marcas diferentes – podia ser de qualquer marca desde que fossem diferentes, dois copos de água; mas não se levantou mais nem foi a revistaria comprar o jornal, a Gazeta, ficou com o olhar fixo, com a mão apoiada no queixo e a outra segurando a aliança fora do dedo. Numa cena conclusiva todos se remoeram: “aí, o velho  doido tomou um pé na bunda ou ficou viúvo, coitado”.

Neste dia, o velho já estava lá havia quatro horas, sem se mexer.

-         Gente, acho que ele morreu! Éh! Tem muita gente que morre assim. É um negócio triste até!”. De repente, simplesmente morre.

Outro velho, um pouco mais velho, sem carrancas, e de um rosto familiar resmunga pra si mesmo: “também, com a derrota e desclassificação do Vila ontem, sê quer o quê?”.

O velho doido, rapidamente desce o braço do queixo, compenetra-se na silenciosa e aveludada voz do companheiro senil, a lágrima escorre-lhe a face esquerda , vira-se e pergunta:

-         O quê aconteceu com o meu Vila?

Olha para a mesma moça de sempre e diz: ´por favor, traga-me outro café´.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. (no prelo)  de  DOUGLAS RODARTE


Lula dá aula de Gramática para Tarso

Essa foi demais!

Trasncrevo aqui a notinha postada no Blog Reinaldo Azevedo, 9 de setembro de 2009:

Leio que, ontem, na reunião da coordenação política do governo, o ministro Tarso Genro lascou um “interviu”. Lula o corrigiu: “Tarso, é interveio”. Diante da estupefação do outro, emendou compreensivo: “Muita gente fala ‘interviu’, mas é interveio”.

A que ponto chegamos, não?


Língua Portuguesa

Assista aulas de Língua Portuguesa em Flip page

O restante das aulas estão na página GRAMÁTICA

O restante das aulas estão na página GRAMÁTICA


Eu e o galo

galo

Em memória do amigo Gileno que sofre tanto

a ausência de seus galos, 6/2007

O que sou sem o meu galo?

Ou seria galos?

Nos meus 26 anos de casado

sempre houve um vazio feliz:

a ausência de meus galos

Onde vocês estão?

Ainda hoje escuto o seu cantar

e o canto inexistente me silencia a alma

Na manhã fria e inóspita

numa tarde, tarde, quase feliz

fico a pensar:

O que são os meus 26 anos

sem o canto feliz dos meus galos.

Extraído de Poemas da vida urbana – poesia reunida. (no prelo)  de DOUGLAS RODARTE


A última quimera

quimera

É uma parada como qualquer outra. Meu ônibus encosta e o motorista abre aquela portinha minúscula e grita: “dez minutos!” Na rodovia para Alexânia são 17:30 horas. Da 5ª poltrona me levanto, estico as costas e desço vagarosamente os degraus. Vou direto ao banheiro: o perfume aromático ressoa corredor à fora. Ao lado, a lanchonete de sempre. Compro o meu lanche: um café preto morno e um pão-de-queijo feito pela amanhã.

A tarde era negra, turva, quase queria chover. Perto das guloseimas vendidas – um velório público fora da calçada. Às margens da amarela grama um choro convulsivo escoava numa uníssona voz por entre a luz do dia e o chão que dizia: “Vem, volta!. Olho do lado do centro da roda e vejo a mãe com um filho nos braços, tossindo um catarro verde que desci, e ainda vejo o menino de dois anos que usava-o como faminto alimento ruminar; duas adolescentes em pé – rostos lacrimais e de um desencanto terminante. No rastro da grama, já batida pelo tempo, um pai redobrado sobre as pernas de lado e o tronco que o acompanhava.

Uma mão segurava o aguardente, e a outra, alisava o abatido, como quem acariciava um ursinho de pelúcia. Degladiava-se em soluço e as não poucas lágrimas sobre um cachorro morto.

A buzina do ônibus soava pela segundo vez. Aguarro firme meu pão-de-queijo e inicio a subida dos degraus, olho o som do choro e pensei que talvez fosse para todos ali, a última quimera.

Título utilizado a partir do belíssimo romance sobre o poeta Augusto dos Anjos, de Ana Miranda.


Entre o sabão e a bucha

cama

Dona Dalva diz até logo, sai pelo corredor, sacola à mão, bate o ponto as 18:37h e pega o ônibus para casa.

Mal ela entra pelo portão, abre a porta da sala, joga a bolsa, a sacola e o corpo sobre o sofá. Pesado e cansado corpo. As crianças rompem o curto espaço de som deixado por Dalva pedindo a sua atenção. Parece não bastar o dia – tudo começa outra vez.

As panelas, a cenoura, a cebola. É a fralda suja, a água do filtro, a papinha do bebê, a janta do marido e o seu banho ainda não tomado.

E, no desgaste da unhas, entre o sabão e a bucha, Dalva respira fundo, como quem desabafa ou recobre o interno ar perdido e escuta o chato sinal do telefone.

- ´Mãe, telefone´. Berra uma das crianças.

O marido imóvel é um animal empalhado, faminto, egoísta, um desgraçado- inerte, compenetrado na tv. Talvez merecesse o privilégio do conforto que a vida marital lhe oferecia. Pôxa! Afinal tinha trabalhado o dia inteiro!

As crianças, após o jantar, dormem.

Dalva na antiga amizade, volta-se para a tábua de passar roupa.  Como o de sempre, passa uma calça, uma camisa e uma gravata para o marido. Passa então seu jaleco de popeline branco, fino, quase transparente e refaz a bolsa com seus pertences. Aproveita e deixa a marmita preparada para as 06:00 horas do dia seguinte.  Já sonolenta, arrumando o lençol, tentando fugir do som da tv, que vinha sem pedir licença: era um jogo de futebol.

Corre a mão pela fresta da cama tubolar e apaga a luz. O sonho demora, pois logo acorda com um peso sobre si: o marido, o empalhado sufoca-lhe o pescoço, acorda-lhe os seios e já mete-lhe a mão sob a calçinha. Dalva abre os olhos – meio que baleada pelo sono: “Ou!Psiu!” Acorda, vai pular fora? O ríspido-carinhoso sussurra à meia-voz.

- Faz o seguinte: – resmungava Dalva – tira a minha calçinha, fica a vontade, quando você terminar, você me cobre.

Uma lágrima escorre pelo canto esquerdo do rosto.

Tão pouco o tempo, e  o relógio a desperta: hora de fazer o café.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. (no prelo)  de DOUGLAS RODARTE


A mulher, Kafka e a esfirra

Estava jantando em Brasília no ano de 2001 com o meu amigo e escritor Domingos Pereira Netto, quando notamos uma voz alterada  e meio sem graça de um marido ao lado ao se referir sobre  a sua esposa dizendo: ´meu chapa, a minha mulher é tão burra,  tão burra que  o cara perguntou se ela gostava de kafka,  ela disse:  não prefiro esfirra!´. Rapaz, é de matar, não é…

Nasce daí esse meu texto. O conto é imperdível!

kafka2

O cheiro do café expresso caminhava lentamente no interior da livraria. Num sonoro e silencioso passar de folhas, entre muitos livros e revistas, logo na entrada, à esquerda guloseimas, cigarros, cachimbos, revistas de foto-novelas e uma serena mulher, baixa, olhos claros de mel, sentada de trás do balcão servindo-se de caixa registradora.
Um homem de bengala, acho que cego, pergunta por um tal “desconhecido” Ricardo Reis, outro pegava um livro que acabava de cair da estante que ficava próxima aos livros de romances e os de poemas. Uns velhinhos buscavam Paulo Coelho ou qualquer outro da linha. Precisavam urgentes.
Naquela hora, junto ao aromático café, um homem, cabisbaixo, silencioso, cabelos pretos, visto de costas, folheava sincronicamente, sob horas, as mesmas obras. Ao lado, um casal – pareciam amigos : cigarreta à mão, está comprando Augusto dos Anjos e observando a Folha de São Paulo; ela lança-lhe várias perguntas sobre família, sobre os semanários, as novas fofocas da cidade. Na verdade, conversaram, por meia hora.
Por um instante, naquele negrume diálogo, seu jornal cai, e dela, o saco de balas. Ainda se recompondo a compostura pergunta:
— Você gosta de Kafka?
Ela não titubeou e solta:
— Não, prefiro esfirra!
O homem da leitura, de costas, escuta, respira, levanta a cabeça e começa a devolver à estante O Processo, A Metamorfose e Carta ao Pai que levavam seu nome na capa. Estende e abana a mão à mulher do caixa e caminha lentamente para fora e senta-se no Café ao lado.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. (no prelo)  DOUGLAS RODARTE


Claustro

 

     Carlos casou-se com Rita. Fora um enlace matrimonial muito bonito. Rita estava deslumbrante, reluzente mesmo. Carlos, ansioso, meio gordinho, acabava de se encaixar dentro de sue pequeno terno. Ele, na verdade, não sabia como agradá-la melhor: “faço um bolo?”, “ toco um violão?”, “ canto?”, “ choro?”. Relutava na noite fatal que aconteceria numa aconchegante capela em Sobradinho.

Para Carlos, o casamento era mais do que um enlace, mais que um amalgamar de corações; era a vitória sobre a sogra – a Dona Artemísia. Nome que o atormentava desde a primeira noite em que foram apresentados, pois o ressoar do nome o lembrava a saudosa professora de matemática do primário. O triunfo sobre a convivência desgraçada com a sogra, estava próximo.

Mas Rita também tinha um presente especial para Carlos que ela havia prometido dar somente no final da lua de mel. Rita foi cautelosa e esperou o marido numa boa hora em que as afeições corporais estavam no fim de sua sincronia e lhe deu o prometido: “amor, minha mãe vai ter que morar com a gente!” – disse, franzindo a testa e cruzando os dedos da mão esquerda. O quarto ficou mudo e as paredes em sua negritude fecharam os olhos. “Não fica assim não, tudo vai dar certo, você vai ver!”.

Carlos emudece. Vira-se para o lado e dorme. O casamento começou com um sonho frustrado: “Que ré meu! Dizem que sogra é bicho maldito, que até fala, o bicho fala!.” O coitado começou a adoecer da alma ao longo dos anos. A cabeça sofria tanta pressão por causa dos ajustes que não tinha pra onde ir: chegou a 140 quilos. ”Será que essa velha tá botando alguma coisa na minha comida?!? ”, “ Não, não, isso só tá na minha cabeça”- pensava em frente a balança repetidas vezes…

Realmente, era um inferno. A velha fazia questão eterna de não dormir no quarto reservado para ela; só dormia se fosse na sala. A sala ficava dividindo parede com o quarto do casal. A velha dorme tarde e acorda todos os dias antes das 6h00. A proximidade com a sogra lhe estragava o matrimônio, lhe castrava a paternidade e não libertava sua sexualidade.

Engraçado, a vida: ao mesmo tempo risco e oportunidade estão sempre juntos. Carlos se estressava com esse ritmo na mesma velocidade com que Rita ía construindo seu castelo de auto-confiança e proteção.

A doença de Carlos causa-lhe dores cada vez mais intensas no coração. Tempos depois, um pouco mais conformado com a sua sina injusta, comprou sua própria casa e mudaram-se. Todos. Carlos conseguiu viver momentos raros na vida; gozava-os completamente à sós com Rita, pois ele tinha se esquecido de que alguns quando se casam não vão sozinhos. Eles levam a outra metade do ser: a mãe.

Anos depois, já com oito anos de casados, reencontro Carlos lutando com a dieta e faço uma perguna familiar de nós dois: “e aí, como está a família?” As paredes da sala em que estamos ficou gelada, e só escuto o som de seu silêncio, o som de seu claustro.

Coloco a mão sobre o seu joelho direito e pergunto:

“fez o trabalho da faculdade?”.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando - contos. DOUGLAS RODARTE


Disconcordo!

Vale a pena rever esta passagem da Folha de São Paulo.   

Até hoje o Aurélio está ofendido.

Risos. 

 

Não fomos apresentados

Algumas semanas antes do impeachment de Collor, em 92, o vereador João Pedro (PC do B) subiu à tribuna da Câmara Municipal de Manaus para atacar o então presidente.

Exaltado, João Pedro defendia a renúncia imediata de Collor ou a sua cassação pelo Congresso Nacional. No meio do discurso, a vereadora Lurdes Lopes (PFL) pediu um aparte ao colega e logo foi dizendo:

- Nobre vereador, o presidente Collor de Mello não é nada disso. “Disconcordo” totalmente do senhor.

João Pedro não perdoou o erro da parlamentar:

- Vereadora, a senhora está agredindo o Aurélio.

Sem perceber que o parlamentar se referia ao dicionário Aurélio, Lurdes passou a berrar, muito contrariada, provocando gargalhadas:

-  O senhor está fazendo uma acusação absolutamente infundada! Jamais falei mal do Aurélio. Aliás, nem conheço ninguém com esse nome!

Folha de São Paulo, 11/1/2000 (adaptado)


Deus trabalha no turno da noite

      

 

 

      Desculpe por tomar emprestado o belíssimo título do livro de       Ron Mehl. Foi inevitável. O fato é que acordei e lembrei-         me de um poema do poeta gaúcho Mário Quintana que           diz:

 

 

   A construção

    Eles ergueram a torre de Babel

    para escalar o céu.

    mas Deus não estava lá!

    Estava ali mesmo, entre eles,

    ajudando a construir a torre.

    (A vaca e o Hipogrifo)

      Muitas vezes é assim: trabalhamos incançavelmente para encontrar a Deus ou mesmo tentar chegar próximo daquilo que  talvez o agradaria, mas nada. Ficamos com um pequeno vazio, nos sentindo sós em nossa labuta. Quase sempre a vida se parece com a construção desta torre. Deus sempre está por perto e trabalhando junto e firme, dia e noite!

     Eita! Velhindo inteligente!


O silêncio e Eu

 

Em memória aos dez anos da morte de

Mário Quintana (1906-1994).

Escrevo às 20:47h

de uma cama

num Grande Hotel

no 8 andar em POA

O bloco de notas

estava mudo

e o ar que entrava pela janela

era tão frio quanto o frescor que vinha do Guaíba

A TV ligada era a única

que me trazia o som à memória

mas, as palavras, ah! As palavras…

não falam comigo há seis meses

até que num instante, entra um velho, magro, de cigarro na boca,

boina na cabeça, de andar curvo e fala mansa

e senta-se na poltrona , do lado esquerdo da minha cama e, logo ele foi falando:

- calma! Meu bom rapaz. Calma. Tenha paciência.

Há dez anos que deixei Porto Alegre

Sinto saudades…

Hoje, daqui de longe

‘Olho o mapa da cidade

como quem examinasse

a anatomia de um corpo

(é nem que fosse o meu corpo!)

sinto uma dor infinita

das ruas de Porto Alegre

onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,

há tantas nuanças de paredes,

há tanta moça bonita

nas ruas que não andei

(e há uma rua encantada

que nem em sonhos sonhei…)

quando eu for, um dia desses,

poeira ou folha levada

no vento da madrugada,

serei um pouco do nada

indivisível, delicioso

que faz com que o teu ar

pareça mais um olhar

suave mistério amoroso,

Cidade de meu andar

(deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…’

Então, meu bom rapaz,

retribuo à visita que tu me fizeste à minha casa pela 4 vez,

e não vim antes por causa da idade

então relaxa, meu bom rapaz, porque com a poesia é assim mesmo:

às vezes, saudades,

noutras vezes,

só nós

e

o

silêncio.

 


Acaso é saudade, Senhora?


“Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa da esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho. Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, e até o canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam e eu ficava só, sem o perdão de sua presença a todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.
E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do tempero da salada – meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa, calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolhas? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.”
Alfredo Bosi, 1975.

É um conto abstrato e polissêmico. A sua beleza e robustez estética nos deixa um tanto com absinto e saudade na alma. O discurso de Alfredo Bosi elide texto e assunto. Explico: o tema da saudade é tão forte como um cutelo. O cutelo vai cortando aos poucos. Retirando as farpas. O cutelo é uma ferramenta específica, não serve pra tudo. Assim é este conto. Não serve pra tudo, mas serve cortar. Cortar a alma. Um corte paradoxal.
O corte na alma é feito uma vez que não sabemos quem é a senhora deste conto. O sujeito passivo aqui sofre. E no seu sofrimento, sofremos nós. A notícia de nossas perdas, sempre, sempre vem aos poucos. Essa é a dura realidade a qual temos que conviver. Nem sempre a ´luz na varanda´ deixará as coisas claras e óbvias. No estalar da saudade, muitas vezes, só reluz negrume e bagunça.
Assim somos. Acaso é saudade, Senhora? Não sabemos. Essa é a nossa dor: uma dor que noticia aos poucos.


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