Disconcordo!

Vale a pena rever esta passagem da Folha de São Paulo.   

Até hoje o Aurélio está ofendido.

Risos. 

 

Não fomos apresentados

Algumas semanas antes do impeachment de Collor, em 92, o vereador João Pedro (PC do B) subiu à tribuna da Câmara Municipal de Manaus para atacar o então presidente.

Exaltado, João Pedro defendia a renúncia imediata de Collor ou a sua cassação pelo Congresso Nacional. No meio do discurso, a vereadora Lurdes Lopes (PFL) pediu um aparte ao colega e logo foi dizendo:

– Nobre vereador, o presidente Collor de Mello não é nada disso. “Disconcordo” totalmente do senhor.

João Pedro não perdoou o erro da parlamentar:

– Vereadora, a senhora está agredindo o Aurélio.

Sem perceber que o parlamentar se referia ao dicionário Aurélio, Lurdes passou a berrar, muito contrariada, provocando gargalhadas:

 O senhor está fazendo uma acusação absolutamente infundada! Jamais falei mal do Aurélio. Aliás, nem conheço ninguém com esse nome!

Folha de São Paulo, 11/1/2000 (adaptado)

Deus trabalha no turno da noite

      

 

 

      Desculpe por tomar emprestado o belíssimo título do livro de       Ron Mehl. Foi inevitável. O fato é que acordei e lembrei-         me de um poema do poeta gaúcho Mário Quintana que           diz:

 

 

   A construção

    Eles ergueram a torre de Babel

    para escalar o céu.

    mas Deus não estava lá!

    Estava ali mesmo, entre eles,

    ajudando a construir a torre.

    (A vaca e o Hipogrifo)

      Muitas vezes é assim: trabalhamos incançavelmente para encontrar a Deus ou mesmo tentar chegar próximo daquilo que  talvez o agradaria, mas nada. Ficamos com um pequeno vazio, nos sentindo sós em nossa labuta. Quase sempre a vida se parece com a construção desta torre. Deus sempre está por perto e trabalhando junto e firme, dia e noite!

     Eita! Velhindo inteligente!

O silêncio e Eu

 

Em memória aos dez anos da morte de

Mário Quintana (1906-1994).

Escrevo às 20:47h

de uma cama

num Grande Hotel

no 8 andar em POA

O bloco de notas

estava mudo

e o ar que entrava pela janela

era tão frio quanto o frescor que vinha do Guaíba

A TV ligada era a única

que me trazia o som à memória

mas, as palavras, ah! As palavras…

não falam comigo há seis meses

até que num instante, entra um velho, magro, de cigarro na boca,

boina na cabeça, de andar curvo e fala mansa

e senta-se na poltrona , do lado esquerdo da minha cama e, logo ele foi falando:

 calma! Meu bom rapaz. Calma. Tenha paciência.

Há dez anos que deixei Porto Alegre

Sinto saudades…

Hoje, daqui de longe

‘Olho o mapa da cidade

como quem examinasse

a anatomia de um corpo

(é nem que fosse o meu corpo!)

sinto uma dor infinita

das ruas de Porto Alegre

onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,

há tantas nuanças de paredes,

há tanta moça bonita

nas ruas que não andei

(e há uma rua encantada

que nem em sonhos sonhei…)

quando eu for, um dia desses,

poeira ou folha levada

no vento da madrugada,

serei um pouco do nada

indivisível, delicioso

que faz com que o teu ar

pareça mais um olhar

suave mistério amoroso,

Cidade de meu andar

(deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…’

Então, meu bom rapaz,

retribuo à visita que tu me fizeste à minha casa pela 4 vez,

e não vim antes por causa da idade

então relaxa, meu bom rapaz, porque com a poesia é assim mesmo:

às vezes, saudades,

noutras vezes,

só nós

e

o

silêncio.

 

Acaso é saudade, Senhora?


“Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa da esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho. Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, e até o canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam e eu ficava só, sem o perdão de sua presença a todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.
E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do tempero da salada – meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa, calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolhas? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.”
Alfredo Bosi, 1975.

É um conto abstrato e polissêmico. A sua beleza e robustez estética nos deixa um tanto com absinto e saudade na alma. O discurso de Alfredo Bosi elide texto e assunto. Explico: o tema da saudade é tão forte como um cutelo. O cutelo vai cortando aos poucos. Retirando as farpas. O cutelo é uma ferramenta específica, não serve pra tudo. Assim é este conto. Não serve pra tudo, mas serve cortar. Cortar a alma. Um corte paradoxal.
O corte na alma é feito uma vez que não sabemos quem é a senhora deste conto. O sujeito passivo aqui sofre. E no seu sofrimento, sofremos nós. A notícia de nossas perdas, sempre, sempre vem aos poucos. Essa é a dura realidade a qual temos que conviver. Nem sempre a ´luz na varanda´ deixará as coisas claras e óbvias. No estalar da saudade, muitas vezes, só reluz negrume e bagunça.
Assim somos. Acaso é saudade, Senhora? Não sabemos. Essa é a nossa dor: uma dor que noticia aos poucos.

Ensaio sobre a Cegueira, a Crise mundial e a Bíblia


por DOUGLAS RODARTE *

Defronte ao belo e  tempestivo trabalho de Fernando Meirelles (2008) – uma metalinguagem a partir do livro de José Saramago é impossível não retomar alguns outros textos. Quereria compartilhar algumas coisas com você. Não seguirei o caminho da maioria das críticas feitas ao Ensaio de Saramago. O meu recorte será a síntese a partir de comparações textuais entre O Ensaio sobre a cegueira, a Crise mundial e a Bíblia.

A propositura levantada por Saramago, explorada tematicamente em Meirelles, mais confronta, joga no chão algumas convenções e, por fim, revela traços e verdades de AL Gore – Uma verdade inconveniente (An inconveniente truth, 2006). Desculpe a minha pobreza metonímica.

O fato é que Saramago consegue chocar o mundo. O velhinho é bom. Encontramos nele o velho vício de todo ficcionista: “espiar as coisas pelo outro lado.” Penso que, aqui, em O Ensaio sobre a cegueira, o enfoque sobre o outro lado do muro, nos remete às verdades não descobertas e conquistadas, discursos evitados, incontinências, quebras de diversos paradigmas, etc. Lê-se  esta obra como quem vê um ente querido descer à cova: uma mistura de choro, consternação, alma liberta do corpo, dor inexplicável.

A questão é que perdemos o chão diante de tantas questões que, em outros momentos, onde a vida não desfrutava de esvaecimento tal, não se chega a discutir nem se opor, pois é o sentindo da realidade que revela a intenção do discurso.

Veja o trailer:

Ao ver o filme, soltamos a voz, trêmula e angustiante como Manuel Bandeira em dezembro de 1947:

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

A minha mente fora asfixiada por questões como: “O que é a moralidade?”, “Existe o certo e o errado?”, “Existe limites para o bem e o mal?”,  “Existe mal?”, “Afinal, o que é o ser humano? ” “Moralidade pra quê e para quem?”,  “Alguém vê um palmo à sua frente?”,  “Quem sou eu?”, “Quem impõe limites à vida?”,  “Ninguém se candidata?”,  “A vida vale mais que o pão?”,  “Mais que o sexo?”,  “Mais que o respeito e o pudor?”,  “Afinal, o que é pudor diante da fome?”, “Do desespero?”,  “Compensa o altruísmo mediante um caos?”,  “Quando o caos é grande, e o lugar da quarentena é pequeno, tem lugar pra todos?”,  “A vida é injusta? “,  “Será que Deus não está vendo a nossa cegueira?”,  “Porque ele não manda comida?”,  “Alguém pra cuidar de nós?”,  “Foi assim que o Saulo de Tarso se sentiu quando caiu do cavalo, na estrada para Damasco? ” Por favor, confira Atos 9.1-9.

Meirelles esteve no 61º Festival de Cannes, 14 MAI (ANSA) e fez a seguinte declaração: “É uma parábola sobre a fragilidade da civilização e a facilidade com que se derrubam valores aceitos pelas sociedades avançadas.” Fico silente diante da força de sua expressão.

Na Literatura, a Parábola faz-se pelo método comparativo, pela alusão tenta-se aproximar realidades. O fundo didático está exposto. Cabe ao leitor-telespectador-intérprete fazer a síntese. Entre o texto de Saramago, a leitura metalingüística de Meirelles e o impacto da intencionalidade da obra dos dois, ficamos nós.

Vale citar uma passagem de Gustavo Bernardo que falou no IV Congresso de Lusitanistas Alemães – Deutscher Lusitanistentag – em Germersheim, Rhein, na Alemanha em 2001:  não podemos distinguir a percepção da ilusão: as ilusões não seriam erros mas sim parte da experiência e portanto da realidade. Podemos deduzir intelectualmente que tal percepção seria ilusória, mas intimamente não conseguimos vivenciá-la como ilusão, isto é, como não-real, sob pena de deixarmos sob suspeita as demais percepções. O problema não reside em diferenciar realidade (hipotética), ilusão, simulação ou realidade virtual: o que distingue as diversas realidades que se percebem é como o sujeito experimenta e incorpora as vivências. Górgias, muito antes, relacionara os atos de iludir e ser iludido com a sabedoria, na contramão do senso comum: “aquele que ilude é mais justo do que o que não ilude, e o que é iludido mais sábio do que o que não é”. Em outras palavras, conviver com a ilusão parece estar sendo uma habilidade necessária, tanto nos tempos antigos quanto nos tempos presentes.“.

Estas são algumas das questões que motivam a propositura em Saramago. Lidar com Este ficcional e saber o diferenciar da realidade, pede de nós muitos outros conhecimentos e “leituras” de muitas áreas da vida, se não queremos precisar “apalpar para poder perceber a realidade em volta.

A literatura é vasta no quesito ‘perguntas e respostas’ nas entrelinhas. Oferecerei algumas.

Na poesia nua, fria, quase acética de Drummond, talvez, um dos textos que mais esta languidez apareça seja em Um boi vê os homens.

Um boi vendo os homens

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm

e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos

de alguma coisa. Certamente falta-lhes

não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres

e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,

até sinistros. Coitados, dir-se-ia que não escutam

nem o canto do ar nem os segredos do feno,

como também parecem não enxergar o que é visível

e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes

e no rasto da tristeza chegam à crueldade.

Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se

a um simples baixar de cílios, a uma sombra.

Nada nos pêlos, nos extremos de inconcebível fragilidade,

e como neles há pouca montanha,

e que secura e que reentrâncias e que

impossibilidade de se organizarem em formas calmas,

permanentes e necessárias. Têm, talvez,

certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem

perdoar a agitação incômoda e o translúcido

vazio interior que os torna tão pobres e carecidos

de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme

(que sabemos nós), sons que se despedaçam e tombam no campo

como pedras aflitas e queimam a erva e a água,

e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Reunião. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977; p.167.

Bem destacou Bernardo quando disse que O boi, representando a calma imanência animal, supõe-se capaz daquele olhar que exige descrever de maneira neutra o ser dos homens. Assistindo-lendo o Ensaio de Saramago pensei: O que representa ser cego? O que significa graça melancólica? Seria isso que Drummond queria falar?

Fiquei pensando no Drummond revirando no túmulo: “agitação incômoda e o translúcido vazio interior que os torna tão pobres e carecidos de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme (que sabemos nós), sons que se despedaçam e tombam no campo como pedras aflitas e queimam a erva e a água…”.

Os sons drummondianos soaram em meio ao silêncio dos sem-luz. Os cegos viram o clarão da cegueira.

Outro texto inesquecível é o conto do escritor Antonio Tabucchi  “Uma baleia vê os homens”. É um tributo nítido à obra de Drummondiana:

“Sempre tão afobados, e com longos membros que agitam com freqüência. E são tão pouco redondos, sem a majestade das formas plenas e acabadas, e com uma pequena cabeça móvel na qual parece se concentrar toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar mas não a nado, quase fossem pássaros e dão a morte com fragilidade e amável ferócia. Ficam muito tempo em silêncio, mas depois, com fúria repentina, gritam entre eles, num emaranhado de sons que quase não varia e ao qual falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto. E como deve ser penosa a sua forma de amar: e rude, quase brusca, imediata, sem uma fofa manta de gordura, favorecida pela natureza filiforme deles que não pressupõe a heróica dificuldade da união, nem os magníficos e ternos esforços para consegui-la. Não gostam da água, receiam-na, e não se entende por que a freqüentam. Eles também andam em bandos, mas não levam fêmeas, e se imagina que elas fiquem em outro lugar, mas sempre invisíveis. Às vezes cantam, mas só para si, e o canto deles não é um chamamento mas uma forma de lamento comovente. Cansam-se depressa e quando a noite cai deitam-se sobre as pequenas ilhas que os conduzem e talvez durmam ou olhem a lua. Deslizam em silêncio e percebe-se que estão tristes. “.

Pode parecer muito existencialista colocar o homem – senhor do processo – como alvo de análise na boca de um boi e de uma baleia. Animais. Animais.

Fiquei pensando na hora do filme: Cartola deve está cantando para o Drummond lá em cima – ou seria lá em baixo? Desculpe, estou meio anestesiado.

 

O Mundo é Um Moinho – Cartola

Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que iras tomar

Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos.
Vai reduzir as ilusões à pó

 

Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés

Sobre a Crise econômica mundial falo pouco: Hoje, sexta-feira, 10 de outubro de 2008, os jornais a chamam de sexta-feira negra, a mais negra em 40 anos.

O tema da crise, da Cegueira não é nova na história bíblica. O tema é vastamente explorado. Perceba: desde Deuteronômio 28.29 a Apocalipse 3.17.

29 Apalparás ao meio-dia como o cego apalpa nas trevas, e não prosperarás nos teus caminhos; serás oprimido e roubado todos os dias, e não haverá quem te salve.

17 Porquanto dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e nu;

O fato, querido leitor, é que a função do cinema, da arte, da literatura é levantar questões. Nem sempre se preocupa em respondê-las. Está aí, o lado, muitas vezes danoso do fazer arte “sem Deus”. Pois encontramos no sem-Deus, que o deus-caos fala e dá sentido à vida. Não para nós crédulos da Bíblia em todo o mundo.  O sujeito em Drummond, em Saramago e explorado em tantos outros frangalhos temáticos é o José drummondiano que em todo o tempo se pergunta: e agora, José?“.

O mundo, como palco existencial de todos nós, somente compensa ser vivido na perspectiva da luz de Jesus refletida em Nós. Nascemos nus, e assim, voltaremos pro solo. No encontro de Jesus com o Cego a beira do caminho é uma metáfora existencial pra nós. Sem Deus, vemos o cão, por causa de nossa cegueira ontológica (própria do ser). Somos assim. O encontro com Deus, o enamoramento da alma divina, na pessoa de seu filho, a beira dos caminhos de vida, no caminho pra Emaús ou fazendo o caminho de volta pra Santiago do Chile (…) – não precisamos, como bem afirmou Paulo Coelho: “Na margem do rio Piedra, eu sentei e chorei” – Precisamos, apenas  receber o toque, o toque, o toque palpável de Deus em nós. Quem está cego precisa de luz, de toque, de um guia, (no desespero precisa de um cachorro, de uma vara pra se guiar). Jesus é o holofote último.  NEle, encontramos comida, água e abrigo para a nossa alma aflita.

Jesus é a contrapartida para o Ensaio sobre a Cegueira e a crise mundial. Não falo da terra dos cegos. A cegueira em si mesma é o clarão branco, ofuscante em nossos olhos. O que há na frente é caos e o abismo. Somente um outro ensaio no tira da depressão dos textos sobre fuga existencial e, até mesmo, de muitos filmes sobre o cinema catástrofe. O Ensaio de Saramago não é assim. É um belo filme e um dos piores deles. Meirelles acertou, Saramago chorou ao ver a estréia do filme. E o homem mundial ficou com o clarão no final do filme e, sem resposta. Aqui, fica o meu chavão: Jesus é a resposta para a cegueira humana. Ele dá sentido porque encontramos nEle sentido e razão na sua própria relação com o pai. Aqui, encontramos sentido para as nossas existências. A teoria do caos é engolida pela visão econômica de Deus.  Ele está no meio do caos. O caos está ao seu serviço. Nada existe sem Deus, inclusive o caos.

Agora, se vamos viver de mãos dadas (relação de afeto e altruísmo); se vamos caminhar juntos pelas estradas em busca de abrigo no meio das avenidas, isso é outra história. Esta é a propositura cristã. A cruz uniu quem estava na encruzilhada e no caos. Calma e serenidade em meio a cegueira é importante. E por pouco tempo.

Finalizo, dizendo que a vida não é um moinho, como na perspectiva de Cartola. Nem como na visão de Franz Kafka nem tampouco em Sartre e  em Albert Camus.

Em A peste,  ALBERT CAMUS no 1º sermão do Padre Paneloux: p.86/90 citou o texto do Êxodo relativo à peste no Egito e disse: “A primeira vez que este flagelo aparece na história é para atacar os inimigos de Deus. O faraó opõe-se aos desígnios eternos e a peste o faz então cair de joelhos. Desde o princípio de toda a história, o flagelo de Deus põe a seus pés os orgulhosos e os cegos. Meditai sobre isto e caí de joelhos.”

E continuou, num tom mais veemente: “Se hoje a peste vos olha, é porque chegou o momento de refletir. Os justos não podem temê-la, mas os maus têm razão para tremer. Na imensa granja do universo, o flagelo implacável baterá o trigo humano até que o joio se separe do grão. Haverá mais joio que grão, mais chamados que eleitos e esta desgraça não foi desejada por Deus.

Que Deus nos abençoe durante e quando possível existir clarão (temporário) da nossa cegueira.

* Douglas Rodarte é professor de diversas disciplinas de Teologia e professor de Bíblia desde 89, Estudou Teologia na ETIC, tem Licenciatura plena em Língua Portuguesa e Inglesa (UCG, 2005); Especialista em Lingüística e Literatura (UCG, 2005). Professor das Faculdades FATIC e SEPEGO, Obcursos e ESPconcursos. E desenvolve o seu ministério focando na Teologia da Espiritualidade e no Discipulado. É autor dos Livros Salmos inseparáveis, 2007 e livros poéticos – formas, discursos e princípios para a vida. (2008);  Epístolas gerais: intencionalidade, fé e discurso (no prelo); Café, almoço e janta com Jesus – Um modelo de Espiritualidade ao nosso alcance (no prelo)