Claustro

 

     Carlos casou-se com Rita. Fora um enlace matrimonial muito bonito. Rita estava deslumbrante, reluzente mesmo. Carlos, ansioso, meio gordinho, acabava de se encaixar dentro de sue pequeno terno. Ele, na verdade, não sabia como agradá-la melhor: “faço um bolo?”, “ toco um violão?”, “ canto?”, “ choro?”. Relutava na noite fatal que aconteceria numa aconchegante capela em Sobradinho.

Para Carlos, o casamento era mais do que um enlace, mais que um amalgamar de corações; era a vitória sobre a sogra – a Dona Artemísia. Nome que o atormentava desde a primeira noite em que foram apresentados, pois o ressoar do nome o lembrava a saudosa professora de matemática do primário. O triunfo sobre a convivência desgraçada com a sogra, estava próximo.

Mas Rita também tinha um presente especial para Carlos que ela havia prometido dar somente no final da lua de mel. Rita foi cautelosa e esperou o marido numa boa hora em que as afeições corporais estavam no fim de sua sincronia e lhe deu o prometido: “amor, minha mãe vai ter que morar com a gente!” – disse, franzindo a testa e cruzando os dedos da mão esquerda. O quarto ficou mudo e as paredes em sua negritude fecharam os olhos. “Não fica assim não, tudo vai dar certo, você vai ver!”.

Carlos emudece. Vira-se para o lado e dorme. O casamento começou com um sonho frustrado: “Que ré meu! Dizem que sogra é bicho maldito, que até fala, o bicho fala!.” O coitado começou a adoecer da alma ao longo dos anos. A cabeça sofria tanta pressão por causa dos ajustes que não tinha pra onde ir: chegou a 140 quilos. ”Será que essa velha tá botando alguma coisa na minha comida?!? ”, “ Não, não, isso só tá na minha cabeça”- pensava em frente a balança repetidas vezes…

Realmente, era um inferno. A velha fazia questão eterna de não dormir no quarto reservado para ela; só dormia se fosse na sala. A sala ficava dividindo parede com o quarto do casal. A velha dorme tarde e acorda todos os dias antes das 6h00. A proximidade com a sogra lhe estragava o matrimônio, lhe castrava a paternidade e não libertava sua sexualidade.

Engraçado, a vida: ao mesmo tempo risco e oportunidade estão sempre juntos. Carlos se estressava com esse ritmo na mesma velocidade com que Rita ía construindo seu castelo de auto-confiança e proteção.

A doença de Carlos causa-lhe dores cada vez mais intensas no coração. Tempos depois, um pouco mais conformado com a sua sina injusta, comprou sua própria casa e mudaram-se. Todos. Carlos conseguiu viver momentos raros na vida; gozava-os completamente à sós com Rita, pois ele tinha se esquecido de que alguns quando se casam não vão sozinhos. Eles levam a outra metade do ser: a mãe.

Anos depois, já com oito anos de casados, reencontro Carlos lutando com a dieta e faço uma perguna familiar de nós dois: “e aí, como está a família?” As paredes da sala em que estamos ficou gelada, e só escuto o som de seu silêncio, o som de seu claustro.

Coloco a mão sobre o seu joelho direito e pergunto:

“fez o trabalho da faculdade?”.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. DOUGLAS RODARTE