A última quimera

quimera

É uma parada como qualquer outra. Meu ônibus encosta e o motorista abre aquela portinha minúscula e grita: “dez minutos!” Na rodovia para Alexânia são 17:30 horas. Da 5ª poltrona me levanto, estico as costas e desço vagarosamente os degraus. Vou direto ao banheiro: o perfume aromático ressoa corredor à fora. Ao lado, a lanchonete de sempre. Compro o meu lanche: um café preto morno e um pão-de-queijo feito pela amanhã.

A tarde era negra, turva, quase queria chover. Perto das guloseimas vendidas – um velório público fora da calçada. Às margens da amarela grama um choro convulsivo escoava numa uníssona voz por entre a luz do dia e o chão que dizia: “Vem, volta!. Olho do lado do centro da roda e vejo a mãe com um filho nos braços, tossindo um catarro verde que desci, e ainda vejo o menino de dois anos que usava-o como faminto alimento ruminar; duas adolescentes em pé – rostos lacrimais e de um desencanto terminante. No rastro da grama, já batida pelo tempo, um pai redobrado sobre as pernas de lado e o tronco que o acompanhava.

Uma mão segurava o aguardente, e a outra, alisava o abatido, como quem acariciava um ursinho de pelúcia. Degladiava-se em soluço e as não poucas lágrimas sobre um cachorro morto.

A buzina do ônibus soava pela segundo vez. Aguarro firme meu pão-de-queijo e inicio a subida dos degraus, olho o som do choro e pensei que talvez fosse para todos ali, a última quimera.

Título utilizado a partir do belíssimo romance sobre o poeta Augusto dos Anjos, de Ana Miranda.

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Entre o sabão e a bucha

cama

Dona Dalva diz até logo, sai pelo corredor, sacola à mão, bate o ponto as 18:37h e pega o ônibus para casa.

Mal ela entra pelo portão, abre a porta da sala, joga a bolsa, a sacola e o corpo sobre o sofá. Pesado e cansado corpo. As crianças rompem o curto espaço de som deixado por Dalva pedindo a sua atenção. Parece não bastar o dia – tudo começa outra vez.

As panelas, a cenoura, a cebola. É a fralda suja, a água do filtro, a papinha do bebê, a janta do marido e o seu banho ainda não tomado.

E, no desgaste da unhas, entre o sabão e a bucha, Dalva respira fundo, como quem desabafa ou recobre o interno ar perdido e escuta o chato sinal do telefone.

– ´Mãe, telefone´. Berra uma das crianças.

O marido imóvel é um animal empalhado, faminto, egoísta, um desgraçado- inerte, compenetrado na tv. Talvez merecesse o privilégio do conforto que a vida marital lhe oferecia. Pôxa! Afinal tinha trabalhado o dia inteiro!

As crianças, após o jantar, dormem.

Dalva na antiga amizade, volta-se para a tábua de passar roupa.  Como o de sempre, passa uma calça, uma camisa e uma gravata para o marido. Passa então seu jaleco de popeline branco, fino, quase transparente e refaz a bolsa com seus pertences. Aproveita e deixa a marmita preparada para as 06:00 horas do dia seguinte.  Já sonolenta, arrumando o lençol, tentando fugir do som da tv, que vinha sem pedir licença: era um jogo de futebol.

Corre a mão pela fresta da cama tubolar e apaga a luz. O sonho demora, pois logo acorda com um peso sobre si: o marido, o empalhado sufoca-lhe o pescoço, acorda-lhe os seios e já mete-lhe a mão sob a calçinha. Dalva abre os olhos – meio que baleada pelo sono: “Ou!Psiu!” Acorda, vai pular fora? O ríspido-carinhoso sussurra à meia-voz.

– Faz o seguinte: – resmungava Dalva – tira a minha calçinha, fica a vontade, quando você terminar, você me cobre.

Uma lágrima escorre pelo canto esquerdo do rosto.

Tão pouco o tempo, e  o relógio a desperta: hora de fazer o café.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. (no prelo)  de DOUGLAS RODARTE

A mulher, Kafka e a esfirra

Estava jantando em Brasília no ano de 2001 com o meu amigo e escritor Domingos Pereira Netto, quando notamos uma voz alterada  e meio sem graça de um marido ao lado ao se referir sobre  a sua esposa dizendo: ´meu chapa, a minha mulher é tão burra,  tão burra que  o cara perguntou se ela gostava de kafka,  ela disse:  não prefiro esfirra!´. Rapaz, é de matar, não é…

Nasce daí esse meu texto. O conto é imperdível!

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O cheiro do café expresso caminhava lentamente no interior da livraria. Num sonoro e silencioso passar de folhas, entre muitos livros e revistas, logo na entrada, à esquerda guloseimas, cigarros, cachimbos, revistas de foto-novelas e uma serena mulher, baixa, olhos claros de mel, sentada de trás do balcão servindo-se de caixa registradora.
Um homem de bengala, acho que cego, pergunta por um tal “desconhecido” Ricardo Reis, outro pegava um livro que acabava de cair da estante que ficava próxima aos livros de romances e os de poemas. Uns velhinhos buscavam Paulo Coelho ou qualquer outro da linha. Precisavam urgentes.
Naquela hora, junto ao aromático café, um homem, cabisbaixo, silencioso, cabelos pretos, visto de costas, folheava sincronicamente, sob horas, as mesmas obras. Ao lado, um casal – pareciam amigos : cigarreta à mão, está comprando Augusto dos Anjos e observando a Folha de São Paulo; ela lança-lhe várias perguntas sobre família, sobre os semanários, as novas fofocas da cidade. Na verdade, conversaram, por meia hora.
Por um instante, naquele negrume diálogo, seu jornal cai, e dela, o saco de balas. Ainda se recompondo a compostura pergunta:
— Você gosta de Kafka?
Ela não titubeou e solta:
— Não, prefiro esfirra!
O homem da leitura, de costas, escuta, respira, levanta a cabeça e começa a devolver à estante O Processo, A Metamorfose e Carta ao Pai que levavam seu nome na capa. Estende e abana a mão à mulher do caixa e caminha lentamente para fora e senta-se no Café ao lado.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. (no prelo)  DOUGLAS RODARTE