Como se fosse o primeiro dia

Ele vinha de longe, acho que, de bem longe mesmo. Era baixo, meio-calvo, falava pouco,  para não dizer nunca. Todos os frequentadores do café sempre o viram sozinho e sempre amuado. Ele chegava e logo a  moça do café, tinha que ser sempre ela, dizia macio:

–         Bom dia? Bom ju? Good morning?

E o silêncio resfriava o ambiente. Ele entrava, sentava-se, cruzava as pernas, e somente levantava os olhos para a mesma moça, aquela de sempre, e ela mais que depressa trazia as duas xícaras de café, o açucareiro, um adoçante, dois cigarros picados – de marcas diferentes – podia ser qualquer marca desde que fossem diferentes, dois copos de água; sempre ficava não mais que trinta minutos. Depois, calmamente sem tocar em nada, lavantava-se, ia  ao caixa, pagava tudo e saía.

Na mesma toada que saía, entrava numa revistaria, por volta das 7:30h,   na verdade, era uma banca de revista muito ruim,  havia quem gostava. Comprava o jornal de sempre, a Gazeta Mercantil, não olhava  os títulos e nem sequer as manchetes, somente prestava atenção se a data era aquela  mesma.

–         Mais alguma coisa  Sr?

Ele já trazia o dinheiro contado no valor exato, pegava o jornal, dobrava-o ao meio, colocava-o debaixo do braço direito, somente olhava para o jornaleiro e dava-lhe as costas enquanto o jornaleiro sussurrava baixinho, quase imperceptível: “tem que gostar muito, né?  Doze anos, o mesmo jornal! É,  cada um na sua”.

Ele então caminha  destoadamente pela Av. Anhanguera, que fica próxima à praça dos Bandeirantes, pouco distante, pertinho mesmo, do café. Parava, espera a Ótica abrir, dava dois passos e retirava defronte ao espelho  seu pentinho preto para o cabelo e o marrom-fino pequeno para a barba, e ali, gastava três minutos. Não mais que isso. Nunca!

– “Dia  bonito hoje, hein, o Sr. Não acha?”  Perguntavam  lá do fundo da ótica. Com o fim do penteado, abanava a cabeça e dava as costas.

Logo chegava a hora do almoço, ele fazia dois pratos, como de sempre, um frente ao outro, novamente pedia duas xícaras de café, o açucareiro, um adoçante, dois cigarros picados, de marcas diferentes – podia ser de qualquer marca desde que fossem diferentes, dois copos de água – esperava tanto, umas duas horas, não tocava na comida, mudo, se levantava, e depois ia embora.

–         Esse velho só pode ser louco! Como pode, todo dia!

Todos e de todos o lugares se perguntavam sobre aquele velho carrancudo e meio-estranho. “Só pode ser louco!”. Uns diziam. “Ah! Isso é trauma!”.  “Não, é alguma macumba que fizeram, meu avô já teve esse troço”.  Outros falavam: “Ih! Vai ver a mulher morreu!”. “Nada, quem sabe é mudo mesmo” e se, é doidura mesmo?  Numa  hora dessas, ele tráz uma bomba! O velho é louco…”.

No dia seguinte a cena foi nostálgica:  ele sentou-se, cedo, e , como se fosse o primeiro  daqueles longos dias, dos longos anos, ele pediu duas xícaras de café, o açucareiro, um adoçante, dois cigarros picados, de marcas diferentes – podia ser de qualquer marca desde que fossem diferentes, dois copos de água; mas não se levantou mais nem foi a revistaria comprar o jornal, a Gazeta, ficou com o olhar fixo, com a mão apoiada no queixo e a outra segurando a aliança fora do dedo. Numa cena conclusiva todos se remoeram: “aí, o velho  doido tomou um pé na bunda ou ficou viúvo, coitado”.

Neste dia, o velho já estava lá havia quatro horas, sem se mexer.

–         Gente, acho que ele morreu! Éh! Tem muita gente que morre assim. É um negócio triste até!”. De repente, simplesmente morre.

Outro velho, um pouco mais velho, sem carrancas, e de um rosto familiar resmunga pra si mesmo: “também, com a derrota e desclassificação do Vila ontem, sê quer o quê?”.

O velho doido, rapidamente desce o braço do queixo, compenetra-se na silenciosa e aveludada voz do companheiro senil, a lágrima escorre-lhe a face esquerda , vira-se e pergunta:

–         O quê aconteceu com o meu Vila?

Olha para a mesma moça de sempre e diz: ´por favor, traga-me outro café´.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. (no prelo)  de  DOUGLAS RODARTE

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