Urubus – Uma metáfora da condição do urbano

Uma leitura em Drummond

O curta Urubus é um filme frio, quase colossal. Repare o olhar dos personagens: Josué (Mauri de Castro) e Alípio (Juquinha) – não é um olhar; é uma feição Clariceana, do tipo da personagem Ana, no conto Amor, em Laços de Família, que ₺olhava e via um cego mascando chicletes.” Confesso que é  um filme curto, mas longo nas possibilidades de leitura, deixa a plateia sem fôlego. Belíssimo e impactante.

Escrito por Miguel Jorge, é um texto rápido que conta a história de dois catadores de lixo. Na verdade, não catadores, mas moradores do Lixão. Miguel escreve um roteiro que não segue na via do monólogo, ou mesmo um filme curta-documentário, como é o desbravador Estamira. Miguel prefere revelar cenas simbólico-verdadeiras que vão mostrando a crueza das relações humanas a partir de um cenário de vivência muito além da vivência humana. Lá é lugar de urubus. Lá vive o Urubu-rei (Sarcoramphus papa). Ele prefere a ave de rapina como ponto de apoio à temática do lixão. Na verdade, em Miguel, nos parece que o Urubu é apenas o ícone do, talvez, mas baixo nível de decomposição de matéira cadavérica. Sabia? Os urubus não possuem siringe (órgão vocal das aves), logo não podem cantar. Portanto, ao invés de cantar eles crocitam. É assim que o Alípio e o Josué são mostrados: eles crocitam. Na mais tenra e densa condição humana. Também não falamos, grunimos; não expressamos inteligibilidade, não comunicamos, não amamos, nem conquistamos; às vezes, apenas sonhamos. Um sonho fétido, mas ainda sonhos.  Continuar lendo

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Numa manhã de Natal

Acordei naquela manhã diferente das outras manhãs. O dia era chuvoso, turvo e frio. Era manhã de natal. Acordei com a gritaria da “galera”. Assim é que era chamada os meus colegas da rua. Naquela época, morávamos numa casa de conjunto, uma casa pequena, numa rua estreita, marrom-amarelada e cheia de buracos. Tinha vezes que cabia um carro lá dentro. Era a rua D-7, esquina com a D-10.
Éramos pobres.  Continuar lendo

“Tudo o que é sólido desmancha no ar”


As crianças gritavam, a televisão, ou melhor, o som estava alto; um choro, um berro, o telefone infernal que sempre tocava nas horas impróprias, e ainda, os seus olhos que tentavam fixar paixão nos seus últimos dez minutos no programa de esporte que passava na TV.
Domingos estava sentado, mudo, telepático, uma chaminé de angústia inerte.

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