“Tudo o que é sólido desmancha no ar”


As crianças gritavam, a televisão, ou melhor, o som estava alto; um choro, um berro, o telefone infernal que sempre tocava nas horas impróprias, e ainda, os seus olhos que tentavam fixar paixão nos seus últimos dez minutos no programa de esporte que passava na TV.
Domingos estava sentado, mudo, telepático, uma chaminé de angústia inerte.

Na mão esquerda, um copo d´água, na outra, o cigarro que se apagava no tempo que se despedia. Era professor – de manhã, tarde e noite – e, de madrugada, era ninguém. Sua noiva, a Carminda – baixinha, carinhosa e ríspida com a ausência de Domingos. Ela, na cozinha (enrolando); os quatro meninos no “ quebra-pau” da sala de estar. Nem a empregada conseguia domar os meninos. Num golpe de rua, no pescoço, um dos meninos bate o pé na casinha de Joãozinho e Maria – era o aquário de Domingos. Trazido com muito cuidado e esmero, de longe, lá dos Lençóis maranhenses.
Seus únicos dois peixinhos subia na torrente que descia entre vidros e pedras.
No chão da sala, onde a água rebatia, molhavam seus discos do Pink Floyd e um de seus livros de poemas mais preferidos: Ferreira Gullar – na sua mão, restos dos originais e O Capital.
“Desliga essa merda de tv que a minha cabeça tá doendo!“ A campainha toca seis vezes, o telefone duas e o celular desliga por falta de bateria. Domingos num suor frio, se levanta, arruma a calça, põe suas sandálias de dedo, pega a carteira, põe os dois peixinhos no bolso, chama o Gullar e arrasta os farelos do Capital, sai pela sala varanda ao lado, desce de vagar pelas escadas, cumprimenta o porteiro, recebe o jornal do dia – Correiro Brasiliense, coloca d´baixo do braço. Chega ao Teatro Nacional, senta-se num café, pede um café amargo, abre o Gullar e degusta “o açúcar“.
Carminda, enlouquecida sai da cozinha, abaixa a tv, abre a porta e recebe um casal de amigos que a beija, o beijo de sempre, e logo pergunta: ”Ué, Carminda, cadê o Domingos?” Uai, menina! Sabe que eu nem sei, às vezes, ele dá uma sumida. Entrem!

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. (no prelo) de DOUGLAS RODARTE

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