Numa manhã de Natal

Acordei naquela manhã diferente das outras manhãs. O dia era chuvoso, turvo e frio. Era manhã de natal. Acordei com a gritaria da “galera”. Assim é que era chamada os meus colegas da rua. Naquela época, morávamos numa casa de conjunto, uma casa pequena, numa rua estreita, marrom-amarelada e cheia de buracos. Tinha vezes que cabia um carro lá dentro. Era a rua D-7, esquina com a D-10.
Éramos pobres. 

Papai, enquanto a cirrose não terminava o seu trabalho, vivia oito meses em casa e o resto do ano no hospital. Perdia o emprego, e constantemente – não sei – parece que perdia também a noção dele. Minha mãe cuidava de si, de um alcoólatra e dos três filhos. Nós, tínhamos oito, onze e treze anos. Mamãe passava quase todo tempo fora de casa. Trabalhava num importante hospital, onde tratavam de doenças tropicais.
No natal anterior, por causa da bebida, meus pais, mais uma vez brigaram. A bebida brigara por ele. Sempre foi assim. A discórdia, a agressão, o desentendimento e os gritos foram letais ao final de minha inocência; voltando pela rua paralela à minha casa, meus pais e nós três avistamos o alvoroço: a briga daquela manhã tinha custado o roubo da casa e de todos os preparativos para o natal. Era natal de 77.
No ano seguinte, naquela manhã – mais uma vez era natal. Parecia calmo, acho que não houve briga. Olhei na gaveta, nada; olhei na meia, nada; rolei as mãos debaixo do cobertor, nada; corri até a porta do guarda-roupa (talvez um revólver de espoleta ou um estilingue de garrote), nada; pensei: ah! Vai ter uma conga ou um ked´s, nada.
Minha angústia infantil foi cortada ao meio à voz trêmula: “filho, vamos lá em cima, no mercado!” Pulei da cama. Reascendeu a esperança, os olhos brilhavam e gritei: “compra, compra!” Mas o olhar do papai dizia que não tinha dinheiro. Ele pegara a garrafa de sempre. Mais dois passo já voltando pra casa, e eu de novo: “compra pai, compra, compra!” Papai com sua impaciência amorosa deu meia-volta e disse: – espere aqui!
Ele voltou ao mercadinho, entrou no Najibe. Najibe era o nome de um dono do supermercado pequeno, quase único do bairro onde morávamos. Voltei um pouco em direção a ele. Fiquei do lado de fora esperando. Demorava muito, e então entrei até a segunda prateleira, e cabeça de lado à esquerda, procurando o avistei: parado, alto com sua imóvel perna manca, sua cabeça paterna debruçava sobre os ombros com o peso de esconder sob a camisa surrada do trabalho, um carrinho de plástico. Era meu brinquedo de natal.
No final deste conto relembro uma passagem em que Olavo Bilac refere-se aos “versos íntimos” de Augusto dos Anjos. E, de uma ficção se extrai, “pois se quem morreu foi o poeta destes versos”, ele diz, “então não se perdeu grande coisa!”.
E numa manhã qualquer, a poucos dias antes de mais um natal, frio e não incomum, sempre vejo aquele carrinho de plástico com aquelas rodinhas pretas. Não importa que presente ganhe e em qual natal for.
Com a sua voz embargada, com a garrafa numa mão, e o carrinho na outra, já distante do mercadinho, ele disse: “Toma filho, foi papai Noel que mandou! ”.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. (no prelo) de DOUGLAS RODARTE

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Um comentário sobre “Numa manhã de Natal

  1. Khatlyn Profeta Araújo disse:

    Tocante, inspirador e rememorizador. É de se lembrar que o mais desleixado pai ama e se comove das paixões da infância de seus filhos. Tocante!

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