Um café e um peito mexido

Você deve estar achando muito estranho o título deste meu conto. E, de fato o é. O café na  Saraiva estava cheio, lotado – sábado é o pior dia para alguém ir ao Shopping, ainda mais ir à livraria. Não tive escolha. Tive que ir. Fui. Estava com uma vontade louca de ler os meus textos de sempre: Literatura, e muita Psicanálise.

Quase no fim de tarde, entre algumas leituras, peço um café expresso, o de sempre, e um pão de queijo. Devorando Lacan naquela tarde , e não deixando de olhar atentamente uma velhinha que estava à minha esquerda. Que coisa interessante: mal vestida. Se é que existe isso. Por ser aquele tipo de lugar, parecia mal vestida. Ela havia pedido um café e um bolo. Raramente tocava o bolo. Ciscava, às vezes. Na sua mesa havia umas revistas, livros de temas variados, mas ela não largava um livro específico. Não dava para ver qual livro era. Ela estava lendo fixamente. O tempo de sua leitura, era o meu tempo ali desde que cheguei ao café. 

Essa velhinha já estava tirando a minha atenção. Seu livro parecia ser mais interessante que o meu Lacan. Lacan é profundamente angustiante! E tinha que voltar as páginas varias vezes. A velhinha não. Ela nunca parava. Ela parecia que tinha soltado os netos na livraria ou simplesmente deixado de fazer muitas coisas naquele ínfima tarde, e resolvera ir para a livraria. Ela não tinha esse direito. Direito? Meu Deus. Que direito?!

Pedi outro expresso. Ela, fixamente naquelas páginas. Ninguém olhava para ela, apenas eu. Eu estava ali. Ela não estava lá. Ninguém nos via. Somente eu a via. Ela estava noutro mundo. De fato parei de ler. Parei com o Lacan. Agora estava somente olhando o arco corporal dela: velhinha, feia até, às vezes soltava um sorriso sem graça de canto de boca, sempre ameaçava pegar um cigarro, mas, sem notar, guardava-o na bolsa novamente; sabia que não era compatível com sua idade aquela blusa meio-aberta – quatro dedos. Bem da verdade,  é que não dava para ver nada. A sua intimidade não era interessante ali. Somente a sua evasão do lugar. Somente eu e ela. A livraria lotada e um vazio funesto a dominava.

Ela segurava lentamente o livro com a mão esquerda, folheava-o mais lentamente ainda com os intercalados dedos senis, e com a outra mão, roçava-lhe o próprio seio – o seio esquerdo. É…, somente o esquerdo. E o direito, cara? Não vai pegar no direito? Que agonia, a minha de ficar olhando um peito sendo mexido!

Naquela tarde, entre um expresso, um pão de queijo, um Lacan  e outro expresso, alguém gozando na minha frente. Roçava a mão direita para cima e para baixo sem parar, lentamente, por mais de uma hora. Eu ali parado olhando-a, na minha mão direita, meu Lacan. O próprio Lacan ficou mais mudo do que se esperava.

Seu gozo me incomodava profundamente: as suas sacolas  deixadas no canto do pé direito da mesa; incomodava a sua bolsa entreaberta com um saco de bolacha mostrando. Era um incômodo estranho.

Tempestivamente peguei o celular e pensei em gravar a cena. Guardei o celular. Remexi o Lacan mais uma vez. Xinguei o Lacan todinho:  “vai pro inferno Lacan” – essa velhinha tá gozando na minha frente, e nem estuda Psicanálise! Que isso. Num pode, ué!

Paguei meu café, e  num rastro, fui embora.

Pertence ao livro: Ensaios psicanalíticos e Outros escritos, no prelo.

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2 comentários sobre “Um café e um peito mexido

  1. Interessante o texto. Como a relação especular, espelho dos nossos desejos, sempre remonta a outros desejos não ditos. Sentado, querendo gozar… e uma velha (fora dos padrões normativos do gozo) gozando sem remorso. O gozo só é gozo quando há em si. Querer gozar a priori já não é gozo, é um querer gozar. Diria que: “Só goza/ O gozo ininterrupto dos imor(t)ais/ Quem fez da norma uma cena cômica”.

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