José e Pilar – “Não há consolo para nós!”

Acaba de chegar às nossas mãos o livro Conversas inéditas – José e Pilar – Ed. Companhia das Letras. A compilação é de Miguel Gonçalves Mendes, autor português, nascido em 78. Na verdade, é o diretor do documentário. Cara bacana. Mais novo do que eu. Puxa vida! Esse livro é uma extensão do filme José e Pilar.
Aqui, ele nos revela um pouco mais do José, o José além do Saramago. O homem que queria “morrer lúcido e de olhos abertos” f

ora fotografado nestas páginas de maneiras muito particulares. Tenho o DVD do documentário. Mas ler o livro, que não é o documentário em livro, é algo muito diferente.

José Saramago e Pilar del Río nos deixa um legado de uma história impar. Realmente um romance, mas não romance no sentido literário infundido na escola da Literatura romântica. A vida deles é um romance do trágico, ou melhor, o romance do Real; e trágico aqui é no sentido de bancar-se numa relação sem abstrações e não operarem na fantasia. Vamos passeando pelas páginas de Conversas inéditas e vamos descobrindo nas “Falas” dos dois o construto que permeia essa relação.

Claro, o discurso reconstruído em toda a cena enunciativa, não da relação, mas do livro é subproduto de muitas horas de entrevistas concedidas à Miguel Gonçalves. Não ficarei aqui descrevendo o livro ou o processo pelo que passou o tempestivo documentário. Mas quero me conversar sobre o impacto da obra Saramago em mim.

Estamos quase findando 2012. Que palavras cortantes de Saramago sobre o amor, a literatura, a vida, a religião, o mercado, o prêmio Nobel, sob o morrer, sobre o viver, sob o nada; tudo isso é de uma fineza estranha. Estranha, pois estamos acostumados a ouvir o que queremos ouvir dos escritores, sobre o processo de criação, a sua relação com o mercado livreiro etc., – nada disto tem a ver com o construto real da vida. Nada. Corrijo: vindos de muitos, não nos acrescenta nada, além de mentir-nos. Saramago é de uma frieza sem igual, e de uma candura quase cristã. Penso quer ele preferiu viver o real à se iludir com a caminhada. Por isso, ele é cortante. Poderia chamar de o corte do caminho. Não queremos isso. Gostamos de quem coloca mel na conversa.

Em Saramago, percebe-se o pé no chão. Viver não seria assim? Ou melhor: não precisa ser assim? Alguém que disse: “não tenhas pressa e não percas tempo” sabia viver sob a urgência da vida. Ele tinha a calma necessária pra tocar seu ofício. Mas não o idolatramos. Longe disto. Vou na direção de que para mim é um dos piores autores e um dos melhores. Pior nos sentido abstrato do termo. É um cara ácido, frio e desesperançado. Está aí o seu pior. Pôxa! Suportar isso é que é o difícil. Na contrapartida, é um dos melhores. Ele nos joga no chão com sutilezas de falas advindas de escutas outras.

Saramago nem sempre é José. José, quase sempre não o vemos em Saramago. Desculpe tantas as metáforas e o aparente paradoxo. Quando me refiro à escutas outras, refiro à tantos autores que nos influenciam na construção de nossa própria literatura. Cito uma passagem que está no livro, quando José conhece Pilar em 84, e os dois caminham por horas em conversar literárias. Dali percebe-se fruição da literatura que os acompanha. Pilar del Río é um caso à parte. Ficará para outra oportunidade textual.

Voltando ao real do Saramago, muito me parece que ele tinha tomado goles homéricos do Livro do Desassossego, de Pessoa. Pessoa é pra se ler uma ou duas vezes na vida. E só! Não tente mais vezes. Não funciona. Corra D’ele. A gente corre, mas cai na obra do José. “José, para onde? ” lembra? Pois é. O José drummondiano.

Preciso terminar dizendo: necessário é olhar Saramago e José mais de pertinho. São quase dois: “Acho que poucos escritores, e isso quem o leu com atenção e o conhece perceberá, são tão eles em sua obra. Há poucas diferenças entre o autor do livro, a voz do narrador e o que expressa o livro.”, afirma Pilar, a espanhola. Quase dois. Mas é um.

Vale a pena ceder ao convite pra se deixar entrar pelo realismo, quase psicanalítico, borrifado nos textos D’ele. Ao responder ao Miguel sobre o sofrer, ele responde: “Não há consolo para nós, lamento mas não há. Não há consolo”.

Escrevi outro Ensaio utilizando Saramago como ponte dialogal. O Ensaio sobre a cegueira, a crise mundial e a Bíblia está no sítio.

José Saramago é um desassossegado necessário para os nossos dias.

Estraído de ENSAIOS PSICANALÍTICOS (Psicanálise, Literatura e Cinema), de DOUGLAS RODARTE. No prelo.

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