Entre livros e pessoas

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 Na livraria de hoje são 17 horas. Senta-se ao meu lado o Pessoa. Isso, Fernando Pessoa. Veio trazendo o Livro do desassossego. Chegou e jogou o livro em cima de mim, e disse: “tá na hora de recomeçar!” “Tá preparado?”. Claro que não! Pensei rapidamente. Eu tinha acabado de ler texto da da Márcia Tiburi que se chama Era meu esse rosto, e eu estava tão concentrado, não esperava essa visita tão intempestiva.

A livraria estava fria, o chão frio, pessoas frias. Tudo frio. Não tinha sol pra aquecer, gente que pra conversar, nem se quer livros pra ler. Só cabia ali eu, a Tiburi e o intruso do Pessoa. Hoje, não pedi o café de sempre. O expresso de lá é frio. Pode? Tinha um pão de queijo bem triste, triste de velhice, pois era das 12h. Perguntei que horas teria um novo. A moça que serve, que não é uma barista, atende às mesas, e apressada que só, disse sem trocar de cor: “só assarei mais quando acabar esse último aí, se quiser”.

A livraria ficou mais fria ainda. Engasguei com café frio não tomado e pão de queijo não degustado.

Porque insistimos em ir em lugares que não gostamos? Porque sustentamos relações que não suportamos? Porque ler o que não gosto? Porque tomar um café que não tomo? Suportar uma pessoa intragável? Porque remoer o que me inflige? Porque voltar ao que nos machuca? Porque dar um passo em direção ao outro quando não estou pronto pro Outro? Porque calar quando deveria ter dito? Porque deixar o dito pelo não dito? Porque deixar as coisas como estão como se ficassem bem assim? Porque aceitar coisas quando quero rejeitar? Porque fingir que perdoamos? Porque usar de porquês quando o dito já se impôs e o silencio já disse o que o não dito quis dizer?

Agradeci a frieza da resposta, entendi que o café, por isso era frio, a energia fria, tudo frio. Catei a Tiburi, deixei mudo na mesa, o Pessoa. Desci as escadas, e sentei na muvuca, numa mesinha do lado da escada rolante, onde não tinha livros, só pessoas transitando de lá pra cá, só barulho, barulho infernal. Sentei. Sentei, pedi um expresso do jeito que tem que ser, e fui produzir  o que o coração mandou. No silencio do coração, silêncio-cão, no coração da muvuca, sem livros, entre muitas vozes. Eu, só eu e o som do Pessoa ecoando: “…e aí, pronto?”.

Obs.: Este conto é parte integrante do Livro de Contos  Eu deixo aqui o que resta dele em mim  – Contos sobre a afetividade humana.  (No prelo) 

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