O cheiro das curvas da cor daquilo que fica no prato.

Naquele cinza domingo eram 7h10 da manhã. Acordo….vou meneando a cabeça, como quem acorda baleado pelo sono, e me dirigindo vou ao local de onde sempre sai o aroma do café que preparo: a cozinha. “Aceita um pedacinho”… pergunta a moça, sem pensar no que estava me oferecendo. Eu disse: “não, não, agradecido”. “Nossa! – insiste ela mais um pouco – Come um pedacinho”. Ali, começara tudo novamente.

Nesse dia, o dia estava cheio e fervente. Era uma tarde, entre muitos afazeres e demandas, me chega num pires um pedaço de requeijão. “Quer que eu esquente? Daí, vai ficar bem molinho, gostoso até…, quer?”. Disse isso como que estava dizendo lá no fundo: “Ah! … se você soubesse o que vai acontecer depois de colocar isso na boca!”. 

“Aceito comer um pedaço”. Eu disse querendo não querer.

Tive uma namorada na infância. Eu era bem menino, pequeno mesmo. Por volta de uns 10 ou 11 anos. Eu subia a rua de poeira próximo da minha casa somente pra passar na porta da casa dela. “Vai que ela estava lá”. Besteira pensar! Ela estudava comigo na minha sala. Eu tinha a certeza que ela era minha namorada. Um dia ela escreveu um bilhete que nem lembro nem como chegara nas minhas mãos, nem mais o que era. Só sei que eu li que ela me amava. É eu tinha lido isso. Isso, foi isso. Pronto. Isso bastava. Minha mãe não sabia, meu colegas não sabiam, ninguém podia saber. Só eu. Eu que sabia que estava namorando ela. Nem ela poderia saber, se não terminava comigo. Minha nossa! Como era intenso isso. Emília era o nome dela. Ela tinha um cheiro gostoso. Toda vez que eu queria lembrar dela, eu subia àquela rua, ou eu pegava o bilhete, e lá, lá tinha o perfume das letras dela.

Às vezes viajo, ando, olho as estrelas, escuto música, pego no meu baú das lembranças àquele bilhete, e volta tudo de novo. Tudo, tudo, tudinho.   Ah! Querida Emília!

Acho que a mãe dela não gostava de mim, sei lá. Ela não me sai da mente. Entretanto, não me lembro do bilhete, somente do cheiro. O cheiro interminável das letras.

Pego a minha Moca pra preparar o café. Esse nome dado à minha máquina de fazer café veio retomado da cidade de Mocha, na costa do Mar Vermelho, no Iêmen, que no século quinze.

Preparo um café com grãos colhidos do sul lá das Minas Gerais, de onde sai àquele inverso frio. O local é frio. Um frio de qualidade. A qualidade exata pra produzir aquele Blend. No orifício da Moca, sai pelo suspiro, no indicador de pressão, que o café está ficando pronto.

Nessa toada, esquento o requeijão. O requeijão é um elemento estranho, talhando por muitas horas, feito de leite de fazenda. Depois, ele é passado na gordura frita do próprio leite. Ele sai quente e mole. Ganha a forma a beleza para qual ele veio. A beleza dele está na sua capacidade de se formatar para o outro. E enquanto isso, ele exala um aroma incomparável. O aroma dos deuses. A questão não está somente no sabor, mas no cheiro. O cheiro das curvas da cor daquilo que fica no prato.

Coloco o café na xícara das horas. Meu pedaço de requeijão assenta-se no prato como um felino que sentado aguarda silente no horizonte, ou mesmo, como alguém que se entrega na morte e para a morte, e quando a morte é a única possibilidade. Na verdade, a figura dele no prato, é a paciente rendição da matéria.

O requeijão….não se come rápido, nem aos montes. Degusta-se pelas narinas. O café, ah! … o café….. é apenas o parceiro.

Coloco o requeijão na boa, e a vontade é de nunca o engolir. Fazer isso pra quê? Quem ganhará com isso? Ou quem vai perder? Então, sem engolir, eu sinto o exalo de seu perfume. O seu golpe fatal. O seu agulhar, o seu dilacerar de sensações, a sua candura e o seu estado, sua flacidez e sua filosofia, sua trivialidade e o seu gozo para dentro do que sobra ao lembrar o que é possível lembrar. São reminiscências.

Acaso seria saudade da Emília? Minha eterna namorada? O que tem nesse requeijão? O que colocaram nele? Porque tu me enfeitiça tanto com o cheiro de suas curvas no assento do meu prato?

A TV, nessa hora já marca pra mais de 7h40. As suas imagens ficam totalmente discordantes. O brilho do café com seu cheiro mordaz, se perde na poeira deixada pelo rastro do perfume tempestuoso vindo do meu prato.

Comi. Comi. Comi. Matei aquilo. Fiquei com vontade de comer ele todo. E depois, tudo o que ainda restava. Mas seria como pregar a carta na porta do guarda-roupa. Não, não vou fazer isso. Deixa ele lá, quietinho, faltando um pedaço. Um pedacinho só. Sozinho no recipiente esperando ser consumido pela tessitura do desejo.

Obs.: Este conto é parte integrante do Livro de Contos  Eu deixo aqui o que resta dele em mim  – Contos sobre a afetividade humana.  (No prelo) 

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