Numa manhã de Natal

Acordei naquela manhã diferente das outras manhãs. O dia era chuvoso, turvo e frio. Era manhã de natal. Acordei com a gritaria da “galera”. Assim é que era chamada os meus colegas da rua. Naquela época, morávamos numa casa de conjunto, uma casa pequena, numa rua estreita, marrom-amarelada e cheia de buracos. Tinha vezes que cabia um carro lá dentro. Era a rua D-7, esquina com a D-10.
Éramos pobres.  Continuar lendo

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“Tudo o que é sólido desmancha no ar”


As crianças gritavam, a televisão, ou melhor, o som estava alto; um choro, um berro, o telefone infernal que sempre tocava nas horas impróprias, e ainda, os seus olhos que tentavam fixar paixão nos seus últimos dez minutos no programa de esporte que passava na TV.
Domingos estava sentado, mudo, telepático, uma chaminé de angústia inerte.

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“E aí Jorjão, já fez amor à três?

Seu Jorge levantou cedinho como de costume, olhou pela janela e logo abriu um sorriso positivo – daquele que se diz: ´hoje é o dia´. Jorge era um homem normal, assim como nós, fazia as mesma coisas que todo mundo faz.

Mas nasceu uma segunda-feira inusitada: achava que mesmo cedinho como sempre, esse dia amanhecera diferente. Correu a mão pela pia do banheiro e a escova de dentes cai na privada. “Cê tá louco, sair sem escovar os dentes… nunca! Pô, mas dentro da privada?”

Arrumou tudo, tudo. Deixou apenas a camisa por último – essa mania ele não largava, aliás não largava nenhuma, apenas mudava a ordem – foi vestir: “cadê o botão da gravata?”.  Pôxa, tá parecendo praga!

Seu Jorge chegou ao Café de sempre: “um pão-de-queijo e um capuccino médio, médio hein!, por favor!”. Após uma breve pausa da atendente…

– Desculpe seu Jorge, mas hoje não tem o seu capuccino. Soltou a moça, com uma voz de impotência atenciosa.

– Seu Jorge, não vai hoje um carioquinha pra variar! Não vai se ofender, hein! – respalda mais aliviada a jovem moça.

Não tem lógica! Porque hoje? Logo hoje?! Há quanto tempo eu tomo café só aqui, mas você escolheu hoje, num foi? Não, não, eu sei que foi!

Sua consumação era interna, lenta, parecia que era à medida das horas. Logo um colega do trabalho toca-lhe as costas, numa roda de amigos, no intervalo da hora do almoço: “e aí Jorjão, já fez amor à três? “  “Não!  Não “ Afirma resoluto, seu Jorge.  “Então, corre pra casa que ainda dá tempo!” E as risadas soaram hall à fora, e na mesma velocidade, seu silêncio o engolia.             Na verdade, emudeceu-se com a vontade pelo chá da tarde, o jantar na sua casa com os familiares e, tudo o mais tornou-se fortuito.

Deu às costas e vagou pelo shopping por horas. Ainda restava uma mania antiga: ir ao sebinho atual – uma livraria – misto de livros velhos e novos. Logo entrou com aquele ar de apaixonado, chamou animado até: ´ei! cadê o Zé, ele ficou de olhar uns títulos para mim.

– Ei, doutor, ele saiu, não trabalha mais aqui.

– Como saiu? Saiu que dia?

– Hoje!

– Hoje?

– É, hoje!

Seu Jorge cala e franze a testa, coça a nuca e, é interrompido:

– Posso ajudar? Quais são os livros?

– Pode, pode. Toma aqui. Sem paciência rascunha os nomes das obras e os autores e entrega para um outro atendente.

A velha livraria estava lotada, acontecia um lançamento promocional da série Harry Potter e o rapaz já advertiu o doutor: “Oh! Vai demorar um pouco!

– Como? Porquê? E o computador?

– Tá fora do sistema?

Depois desta seu Jorge encosta no balcão – um encosto de consentimento triste.

Logo o rapaz volta: “Doutor, é o seguinte, tá difícil!

Manuel Bandeira não é aquele que escreveu o Pneumonia. Jorge cuspiu rapidamente: ´puta que pariu!´ Não é a Pneumonia. É Pneumotórax.

– Pois é, morreu deste negócio aí – não tem não!

– Esse aqui ó: Eu,  agosto dos anjos – procurei na parte da religião e exoterismo – não achei nada!

´Agosto dos anjos´, você disse? Puta que pariu duas vezes, cara. Meus Deus! Jorge esta indo à loucura.

Mensagem de Pessoa – nunca tivemos aqui, mas chegou um novo do Chico Xavier, é o que fala com os seus entes queridos. Esse é bom, esse é bom, vende muito. Afirma o velhinho sorrindo.

Antes de ele dar o relatório de sua intensa e próxima procura literária, seu Jorge pergunta:

– A prateleira de poesia tá ficando bem aqui em baixo e caindo  é pra mostrar o desprezo que vocês tem pela poesia, é?

– É! Disse sorridentemente e concordando com a cabeça.

Diz só mais uma coisa: você parece que sabe muito pouco das coisas aqui não é…

Bom, seu Jorge, na verdade, eu, eu … só trabalho aqui.

– Amigão (irritado, seu Jorge), faz o seguinte, – passa a mão na barba do lado direito para o esquerdo – você tem os livros daquele literata, o Paulo Coelho?

– Rô, rô, todinha! Todinha! – respondeu.

– Chequinho à vista, pode ser! Ô?! Congratulou o atendente.

Logo, logo ele volta: “Ô doutor, não vai ter jeito não!

– Que isso! Como não tem?!

Tem não ué, acusou seu nome no SPC!

´´Puta que pariu´´  – esbravejou o velhinhdo. ´´Ía ser a minha primeira venda de hoje´´.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. (no prelo)  de  DOUGLAS RODARTE

Como se fosse o primeiro dia

Ele vinha de longe, acho que, de bem longe mesmo. Era baixo, meio-calvo, falava pouco,  para não dizer nunca. Todos os frequentadores do café sempre o viram sozinho e sempre amuado. Ele chegava e logo a  moça do café, tinha que ser sempre ela, dizia macio:

–         Bom dia? Bom ju? Good morning?

E o silêncio resfriava o ambiente. Ele entrava, sentava-se, cruzava as pernas, e somente levantava os olhos para a mesma moça, aquela de sempre, e ela mais que depressa trazia as duas xícaras de café, o açucareiro, um adoçante, dois cigarros picados – de marcas diferentes – podia ser qualquer marca desde que fossem diferentes, dois copos de água; sempre ficava não mais que trinta minutos. Depois, calmamente sem tocar em nada, lavantava-se, ia  ao caixa, pagava tudo e saía.

Na mesma toada que saía, entrava numa revistaria, por volta das 7:30h,   na verdade, era uma banca de revista muito ruim,  havia quem gostava. Comprava o jornal de sempre, a Gazeta Mercantil, não olhava  os títulos e nem sequer as manchetes, somente prestava atenção se a data era aquela  mesma.

–         Mais alguma coisa  Sr?

Ele já trazia o dinheiro contado no valor exato, pegava o jornal, dobrava-o ao meio, colocava-o debaixo do braço direito, somente olhava para o jornaleiro e dava-lhe as costas enquanto o jornaleiro sussurrava baixinho, quase imperceptível: “tem que gostar muito, né?  Doze anos, o mesmo jornal! É,  cada um na sua”.

Ele então caminha  destoadamente pela Av. Anhanguera, que fica próxima à praça dos Bandeirantes, pouco distante, pertinho mesmo, do café. Parava, espera a Ótica abrir, dava dois passos e retirava defronte ao espelho  seu pentinho preto para o cabelo e o marrom-fino pequeno para a barba, e ali, gastava três minutos. Não mais que isso. Nunca!

– “Dia  bonito hoje, hein, o Sr. Não acha?”  Perguntavam  lá do fundo da ótica. Com o fim do penteado, abanava a cabeça e dava as costas.

Logo chegava a hora do almoço, ele fazia dois pratos, como de sempre, um frente ao outro, novamente pedia duas xícaras de café, o açucareiro, um adoçante, dois cigarros picados, de marcas diferentes – podia ser de qualquer marca desde que fossem diferentes, dois copos de água – esperava tanto, umas duas horas, não tocava na comida, mudo, se levantava, e depois ia embora.

–         Esse velho só pode ser louco! Como pode, todo dia!

Todos e de todos o lugares se perguntavam sobre aquele velho carrancudo e meio-estranho. “Só pode ser louco!”. Uns diziam. “Ah! Isso é trauma!”.  “Não, é alguma macumba que fizeram, meu avô já teve esse troço”.  Outros falavam: “Ih! Vai ver a mulher morreu!”. “Nada, quem sabe é mudo mesmo” e se, é doidura mesmo?  Numa  hora dessas, ele tráz uma bomba! O velho é louco…”.

No dia seguinte a cena foi nostálgica:  ele sentou-se, cedo, e , como se fosse o primeiro  daqueles longos dias, dos longos anos, ele pediu duas xícaras de café, o açucareiro, um adoçante, dois cigarros picados, de marcas diferentes – podia ser de qualquer marca desde que fossem diferentes, dois copos de água; mas não se levantou mais nem foi a revistaria comprar o jornal, a Gazeta, ficou com o olhar fixo, com a mão apoiada no queixo e a outra segurando a aliança fora do dedo. Numa cena conclusiva todos se remoeram: “aí, o velho  doido tomou um pé na bunda ou ficou viúvo, coitado”.

Neste dia, o velho já estava lá havia quatro horas, sem se mexer.

–         Gente, acho que ele morreu! Éh! Tem muita gente que morre assim. É um negócio triste até!”. De repente, simplesmente morre.

Outro velho, um pouco mais velho, sem carrancas, e de um rosto familiar resmunga pra si mesmo: “também, com a derrota e desclassificação do Vila ontem, sê quer o quê?”.

O velho doido, rapidamente desce o braço do queixo, compenetra-se na silenciosa e aveludada voz do companheiro senil, a lágrima escorre-lhe a face esquerda , vira-se e pergunta:

–         O quê aconteceu com o meu Vila?

Olha para a mesma moça de sempre e diz: ´por favor, traga-me outro café´.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. (no prelo)  de  DOUGLAS RODARTE

Lula dá aula de Gramática para Tarso

Essa foi demais!

Trasncrevo aqui a notinha postada no Blog Reinaldo Azevedo, 9 de setembro de 2009:

Leio que, ontem, na reunião da coordenação política do governo, o ministro Tarso Genro lascou um “interviu”. Lula o corrigiu: “Tarso, é interveio”. Diante da estupefação do outro, emendou compreensivo: “Muita gente fala ‘interviu’, mas é interveio”.

A que ponto chegamos, não?

Eu e o galo

galo

Em memória do amigo Gileno que sofre tanto

a ausência de seus galos, 6/2007

O que sou sem o meu galo?

Ou seria galos?

Nos meus 26 anos de casado

sempre houve um vazio feliz:

a ausência de meus galos

Onde vocês estão?

Ainda hoje escuto o seu cantar

e o canto inexistente me silencia a alma

Na manhã fria e inóspita

numa tarde, tarde, quase feliz

fico a pensar:

O que são os meus 26 anos

sem o canto feliz dos meus galos.

Extraído de Poemas da vida urbana – poesia reunida. (no prelo)  de DOUGLAS RODARTE

A última quimera

quimera

É uma parada como qualquer outra. Meu ônibus encosta e o motorista abre aquela portinha minúscula e grita: “dez minutos!” Na rodovia para Alexânia são 17:30 horas. Da 5ª poltrona me levanto, estico as costas e desço vagarosamente os degraus. Vou direto ao banheiro: o perfume aromático ressoa corredor à fora. Ao lado, a lanchonete de sempre. Compro o meu lanche: um café preto morno e um pão-de-queijo feito pela amanhã.

A tarde era negra, turva, quase queria chover. Perto das guloseimas vendidas – um velório público fora da calçada. Às margens da amarela grama um choro convulsivo escoava numa uníssona voz por entre a luz do dia e o chão que dizia: “Vem, volta!. Olho do lado do centro da roda e vejo a mãe com um filho nos braços, tossindo um catarro verde que desci, e ainda vejo o menino de dois anos que usava-o como faminto alimento ruminar; duas adolescentes em pé – rostos lacrimais e de um desencanto terminante. No rastro da grama, já batida pelo tempo, um pai redobrado sobre as pernas de lado e o tronco que o acompanhava.

Uma mão segurava o aguardente, e a outra, alisava o abatido, como quem acariciava um ursinho de pelúcia. Degladiava-se em soluço e as não poucas lágrimas sobre um cachorro morto.

A buzina do ônibus soava pela segundo vez. Aguarro firme meu pão-de-queijo e inicio a subida dos degraus, olho o som do choro e pensei que talvez fosse para todos ali, a última quimera.

Título utilizado a partir do belíssimo romance sobre o poeta Augusto dos Anjos, de Ana Miranda.