Entre o sabão e a bucha

cama

Dona Dalva diz até logo, sai pelo corredor, sacola à mão, bate o ponto as 18:37h e pega o ônibus para casa.

Mal ela entra pelo portão, abre a porta da sala, joga a bolsa, a sacola e o corpo sobre o sofá. Pesado e cansado corpo. As crianças rompem o curto espaço de som deixado por Dalva pedindo a sua atenção. Parece não bastar o dia – tudo começa outra vez.

As panelas, a cenoura, a cebola. É a fralda suja, a água do filtro, a papinha do bebê, a janta do marido e o seu banho ainda não tomado.

E, no desgaste da unhas, entre o sabão e a bucha, Dalva respira fundo, como quem desabafa ou recobre o interno ar perdido e escuta o chato sinal do telefone.

– ´Mãe, telefone´. Berra uma das crianças.

O marido imóvel é um animal empalhado, faminto, egoísta, um desgraçado- inerte, compenetrado na tv. Talvez merecesse o privilégio do conforto que a vida marital lhe oferecia. Pôxa! Afinal tinha trabalhado o dia inteiro!

As crianças, após o jantar, dormem.

Dalva na antiga amizade, volta-se para a tábua de passar roupa.  Como o de sempre, passa uma calça, uma camisa e uma gravata para o marido. Passa então seu jaleco de popeline branco, fino, quase transparente e refaz a bolsa com seus pertences. Aproveita e deixa a marmita preparada para as 06:00 horas do dia seguinte.  Já sonolenta, arrumando o lençol, tentando fugir do som da tv, que vinha sem pedir licença: era um jogo de futebol.

Corre a mão pela fresta da cama tubolar e apaga a luz. O sonho demora, pois logo acorda com um peso sobre si: o marido, o empalhado sufoca-lhe o pescoço, acorda-lhe os seios e já mete-lhe a mão sob a calçinha. Dalva abre os olhos – meio que baleada pelo sono: “Ou!Psiu!” Acorda, vai pular fora? O ríspido-carinhoso sussurra à meia-voz.

– Faz o seguinte: – resmungava Dalva – tira a minha calçinha, fica a vontade, quando você terminar, você me cobre.

Uma lágrima escorre pelo canto esquerdo do rosto.

Tão pouco o tempo, e  o relógio a desperta: hora de fazer o café.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. (no prelo)  de DOUGLAS RODARTE

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A mulher, Kafka e a esfirra

Estava jantando em Brasília no ano de 2001 com o meu amigo e escritor Domingos Pereira Netto, quando notamos uma voz alterada  e meio sem graça de um marido ao lado ao se referir sobre  a sua esposa dizendo: ´meu chapa, a minha mulher é tão burra,  tão burra que  o cara perguntou se ela gostava de kafka,  ela disse:  não prefiro esfirra!´. Rapaz, é de matar, não é…

Nasce daí esse meu texto. O conto é imperdível!

kafka2

O cheiro do café expresso caminhava lentamente no interior da livraria. Num sonoro e silencioso passar de folhas, entre muitos livros e revistas, logo na entrada, à esquerda guloseimas, cigarros, cachimbos, revistas de foto-novelas e uma serena mulher, baixa, olhos claros de mel, sentada de trás do balcão servindo-se de caixa registradora.
Um homem de bengala, acho que cego, pergunta por um tal “desconhecido” Ricardo Reis, outro pegava um livro que acabava de cair da estante que ficava próxima aos livros de romances e os de poemas. Uns velhinhos buscavam Paulo Coelho ou qualquer outro da linha. Precisavam urgentes.
Naquela hora, junto ao aromático café, um homem, cabisbaixo, silencioso, cabelos pretos, visto de costas, folheava sincronicamente, sob horas, as mesmas obras. Ao lado, um casal – pareciam amigos : cigarreta à mão, está comprando Augusto dos Anjos e observando a Folha de São Paulo; ela lança-lhe várias perguntas sobre família, sobre os semanários, as novas fofocas da cidade. Na verdade, conversaram, por meia hora.
Por um instante, naquele negrume diálogo, seu jornal cai, e dela, o saco de balas. Ainda se recompondo a compostura pergunta:
— Você gosta de Kafka?
Ela não titubeou e solta:
— Não, prefiro esfirra!
O homem da leitura, de costas, escuta, respira, levanta a cabeça e começa a devolver à estante O Processo, A Metamorfose e Carta ao Pai que levavam seu nome na capa. Estende e abana a mão à mulher do caixa e caminha lentamente para fora e senta-se no Café ao lado.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. (no prelo)  DOUGLAS RODARTE

Claustro

 

     Carlos casou-se com Rita. Fora um enlace matrimonial muito bonito. Rita estava deslumbrante, reluzente mesmo. Carlos, ansioso, meio gordinho, acabava de se encaixar dentro de sue pequeno terno. Ele, na verdade, não sabia como agradá-la melhor: “faço um bolo?”, “ toco um violão?”, “ canto?”, “ choro?”. Relutava na noite fatal que aconteceria numa aconchegante capela em Sobradinho.

Para Carlos, o casamento era mais do que um enlace, mais que um amalgamar de corações; era a vitória sobre a sogra – a Dona Artemísia. Nome que o atormentava desde a primeira noite em que foram apresentados, pois o ressoar do nome o lembrava a saudosa professora de matemática do primário. O triunfo sobre a convivência desgraçada com a sogra, estava próximo.

Mas Rita também tinha um presente especial para Carlos que ela havia prometido dar somente no final da lua de mel. Rita foi cautelosa e esperou o marido numa boa hora em que as afeições corporais estavam no fim de sua sincronia e lhe deu o prometido: “amor, minha mãe vai ter que morar com a gente!” – disse, franzindo a testa e cruzando os dedos da mão esquerda. O quarto ficou mudo e as paredes em sua negritude fecharam os olhos. “Não fica assim não, tudo vai dar certo, você vai ver!”.

Carlos emudece. Vira-se para o lado e dorme. O casamento começou com um sonho frustrado: “Que ré meu! Dizem que sogra é bicho maldito, que até fala, o bicho fala!.” O coitado começou a adoecer da alma ao longo dos anos. A cabeça sofria tanta pressão por causa dos ajustes que não tinha pra onde ir: chegou a 140 quilos. ”Será que essa velha tá botando alguma coisa na minha comida?!? ”, “ Não, não, isso só tá na minha cabeça”- pensava em frente a balança repetidas vezes…

Realmente, era um inferno. A velha fazia questão eterna de não dormir no quarto reservado para ela; só dormia se fosse na sala. A sala ficava dividindo parede com o quarto do casal. A velha dorme tarde e acorda todos os dias antes das 6h00. A proximidade com a sogra lhe estragava o matrimônio, lhe castrava a paternidade e não libertava sua sexualidade.

Engraçado, a vida: ao mesmo tempo risco e oportunidade estão sempre juntos. Carlos se estressava com esse ritmo na mesma velocidade com que Rita ía construindo seu castelo de auto-confiança e proteção.

A doença de Carlos causa-lhe dores cada vez mais intensas no coração. Tempos depois, um pouco mais conformado com a sua sina injusta, comprou sua própria casa e mudaram-se. Todos. Carlos conseguiu viver momentos raros na vida; gozava-os completamente à sós com Rita, pois ele tinha se esquecido de que alguns quando se casam não vão sozinhos. Eles levam a outra metade do ser: a mãe.

Anos depois, já com oito anos de casados, reencontro Carlos lutando com a dieta e faço uma perguna familiar de nós dois: “e aí, como está a família?” As paredes da sala em que estamos ficou gelada, e só escuto o som de seu silêncio, o som de seu claustro.

Coloco a mão sobre o seu joelho direito e pergunto:

“fez o trabalho da faculdade?”.

Extraído de Aqui, agora, quase, quando – contos. DOUGLAS RODARTE

Disconcordo!

Vale a pena rever esta passagem da Folha de São Paulo.   

Até hoje o Aurélio está ofendido.

Risos. 

 

Não fomos apresentados

Algumas semanas antes do impeachment de Collor, em 92, o vereador João Pedro (PC do B) subiu à tribuna da Câmara Municipal de Manaus para atacar o então presidente.

Exaltado, João Pedro defendia a renúncia imediata de Collor ou a sua cassação pelo Congresso Nacional. No meio do discurso, a vereadora Lurdes Lopes (PFL) pediu um aparte ao colega e logo foi dizendo:

– Nobre vereador, o presidente Collor de Mello não é nada disso. “Disconcordo” totalmente do senhor.

João Pedro não perdoou o erro da parlamentar:

– Vereadora, a senhora está agredindo o Aurélio.

Sem perceber que o parlamentar se referia ao dicionário Aurélio, Lurdes passou a berrar, muito contrariada, provocando gargalhadas:

 O senhor está fazendo uma acusação absolutamente infundada! Jamais falei mal do Aurélio. Aliás, nem conheço ninguém com esse nome!

Folha de São Paulo, 11/1/2000 (adaptado)

Deus trabalha no turno da noite

      

 

 

      Desculpe por tomar emprestado o belíssimo título do livro de       Ron Mehl. Foi inevitável. O fato é que acordei e lembrei-         me de um poema do poeta gaúcho Mário Quintana que           diz:

 

 

   A construção

    Eles ergueram a torre de Babel

    para escalar o céu.

    mas Deus não estava lá!

    Estava ali mesmo, entre eles,

    ajudando a construir a torre.

    (A vaca e o Hipogrifo)

      Muitas vezes é assim: trabalhamos incançavelmente para encontrar a Deus ou mesmo tentar chegar próximo daquilo que  talvez o agradaria, mas nada. Ficamos com um pequeno vazio, nos sentindo sós em nossa labuta. Quase sempre a vida se parece com a construção desta torre. Deus sempre está por perto e trabalhando junto e firme, dia e noite!

     Eita! Velhindo inteligente!

O silêncio e Eu

 

Em memória aos dez anos da morte de

Mário Quintana (1906-1994).

Escrevo às 20:47h

de uma cama

num Grande Hotel

no 8 andar em POA

O bloco de notas

estava mudo

e o ar que entrava pela janela

era tão frio quanto o frescor que vinha do Guaíba

A TV ligada era a única

que me trazia o som à memória

mas, as palavras, ah! As palavras…

não falam comigo há seis meses

até que num instante, entra um velho, magro, de cigarro na boca,

boina na cabeça, de andar curvo e fala mansa

e senta-se na poltrona , do lado esquerdo da minha cama e, logo ele foi falando:

 calma! Meu bom rapaz. Calma. Tenha paciência.

Há dez anos que deixei Porto Alegre

Sinto saudades…

Hoje, daqui de longe

‘Olho o mapa da cidade

como quem examinasse

a anatomia de um corpo

(é nem que fosse o meu corpo!)

sinto uma dor infinita

das ruas de Porto Alegre

onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,

há tantas nuanças de paredes,

há tanta moça bonita

nas ruas que não andei

(e há uma rua encantada

que nem em sonhos sonhei…)

quando eu for, um dia desses,

poeira ou folha levada

no vento da madrugada,

serei um pouco do nada

indivisível, delicioso

que faz com que o teu ar

pareça mais um olhar

suave mistério amoroso,

Cidade de meu andar

(deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…’

Então, meu bom rapaz,

retribuo à visita que tu me fizeste à minha casa pela 4 vez,

e não vim antes por causa da idade

então relaxa, meu bom rapaz, porque com a poesia é assim mesmo:

às vezes, saudades,

noutras vezes,

só nós

e

o

silêncio.

 

Acaso é saudade, Senhora?


“Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa da esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho. Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, e até o canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam e eu ficava só, sem o perdão de sua presença a todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.
E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do tempero da salada – meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa, calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolhas? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.”
Alfredo Bosi, 1975.

É um conto abstrato e polissêmico. A sua beleza e robustez estética nos deixa um tanto com absinto e saudade na alma. O discurso de Alfredo Bosi elide texto e assunto. Explico: o tema da saudade é tão forte como um cutelo. O cutelo vai cortando aos poucos. Retirando as farpas. O cutelo é uma ferramenta específica, não serve pra tudo. Assim é este conto. Não serve pra tudo, mas serve cortar. Cortar a alma. Um corte paradoxal.
O corte na alma é feito uma vez que não sabemos quem é a senhora deste conto. O sujeito passivo aqui sofre. E no seu sofrimento, sofremos nós. A notícia de nossas perdas, sempre, sempre vem aos poucos. Essa é a dura realidade a qual temos que conviver. Nem sempre a ´luz na varanda´ deixará as coisas claras e óbvias. No estalar da saudade, muitas vezes, só reluz negrume e bagunça.
Assim somos. Acaso é saudade, Senhora? Não sabemos. Essa é a nossa dor: uma dor que noticia aos poucos.